O voo da Gaivota 1 | Page 133

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No entanto consigo. No ano anterior, para o exame de francês,
expliquei ao professor que era surda. Pedi a presença de um intérprete, ao qual tenho normalmente direito. Mas não mo concederam facilmente, tive que lutar para que viesse. E consegui. Não queria um professor a meu lado, a facilitar-me as coisas, nem a minha mãe. Não vou consentir que me protejam toda a minha vida. A vida não é isso. Aquele intérprete, nem eu o conheço a ele, nem ele me conhece a mim. Vai pois limitar-se a traduzir o que eu disser.
O examinador de filosofia é simpático. O meu caso interessa-o. Faz-me muitas perguntas acerca do que penso fazer no futuro. Falo-lhe do teatro, ele fala-me de arte. Ele bem gostaria de continuar a tagarelar, mas não é para isso que ali estamos. E atacamos o tema. Eu começo, cheia de convicção.
As sombras da caverna serão a realidade ou a ilusão, a verdade ou a mentira?
Passaram dois anos, já estou um pouco esquecida... Em todo o caso, sei que desenvolvi bem o assunto.
" Os homens, prisioneiros na caverna, privados da luz natural, têm uma visão deformada à luz do fogo ou das velas. Vêem sombras. Só vêem uma parte deformada das coisas... Toda acoisa é uma ideia, o homem deve ir à procura da verdade das coisas. A luz natural, o sol, simboliza essa verdade, a do belo, a do bem, etc."
Sol verdade. Luz verdade. Oral verdade. Falei tanto que já me doíam os pulsos e a garganta.
No final do mito da caverna, o sol que sai do coração, exausto, viu-se premiado com um lindo 16 a filosofia!
Obrigada, sol de Platão! Acabo o liceu! E ainda por cima com boa classificação! E voo. Voo a caminho do teatro. Estão à minha espera. Olhem, olhem. Mãos que falam. Bom dia, bom dia. Encontro-me com o meu encenador-actor, Jean Darric. O verdadeiro trabalho começa. Os Filhos do Silêncio relatam o desafio de dois mundos. O de Jacques, que ouve, e o de Sara, que é surda.