132
" Mas por que é que o teu pai se zangou tanto?"
Escuta. Foi o esperma dele que me deu vida. Não veio de um surdo. Não foi um surdo que me deu vida, foi alguém que ouve. A surdez não tem nada a ver com a raça."
Acabou por concordar que eu tinha razão. Era a primeira vez que eu via o meu " progenitor " naquele estado, completamente fora de si.
Mas quanto ao implante, ainda havemos de voltar a falar sobre o assunto, meu pai. Nas duas línguas. Visto teres aceitado a minha diferença e me teres amado o suficiente para a partilhares comigo.
O médico que faz implantes nunca se engana? Quem foi que disse isso? Hipócrates?
25 O voo
Sara, filha do silêncio. Sara surda, recusando-se a falar. Sara violenta, oprimida. Sara sensível, apaixonada. Sara desesperada.
Duas atrizes espantosas representaram este papel antes demim. Estarei à altura?
Penso e torno a pensar, revejo e torno a rever a matéria.
Já passei a prova escrita. As coisas estão-se a compor. Tenho menos medo da prova oral. Era difícil raciocinar à velocidade da caneta, de burilar as frases. Entendo-me melhor com a oral. Para uma gaivota que em princípio é muda, isso pode parecer bizarro. Mas é assim. Prefiro falar a escrever.
Faço revisões. No início, a filosofia era um problema, sentia-me um pouco naufragada. Acho que para os surdos que tiveram um revés escolar, exprimir o abstrato deve ser difícil. Tive que me empenhar no estudo a sério, estava bastante atrasada... E depois, compreendi. Sou capaz de falar da consciência, do inconsciente, das abstrações, da violência física e da violência verbal, da verdade e da mentira.
Estudei tanto que tenho cara de gaivota doente. Passa no exame, Laborit, terás o teatro como recompensa. " Menina Laborit, fale-me do mito da caverna. Desenvolva..." Estou na oral. A verdade segundo Platão. Dificílimo.