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Esse implante assemelha-se muito àquele aparelho que os militares americanos aplicavam aos golfinhos para tentar entender a sua linguagem e fazer experiências. Experiências...
Desde há vinte anos, mais ou menos a idade que eu tenho,
que alguns médicos- não todos- não se cansam de proclamar: " Os surdos poderão ouvir Beethoven!" De início erapara amanhã. Depois, passou a ser para um futuro próximo ".
Depois houve a necessidade de adesões privadas. Recuou-se então no diagnóstico e chegou-se à conclusão que era preferível não tocar na surdez com mais de dez anos. Decidiram então que era aconselhável fazer o implante aos surdos na primeira infância, antes que o cérebro auditivo atrofiasse. Como se fosse preciso agir depressa, depressa, antes que o erro fosse comprovado.
As ideias vão e vêm, a informação é mal feita, ninguém tem a certeza de nada, cada caso é um caso, e ninguém pode jurar que a experiência vai resultar neste ou naquele surdo. E ainda por cima não se pode falar no assunto?
É verdade que acho deplorável esse lado experimental num ser humano. E sem ser uma ativista em fúria, vinte e quatro horas por dia, tenho o direito de dizer o contrário do que afirma, senhor implantador.
Numa reunião de reflexão organizada para surdos, o meu pai veio, juntamente com professores especializados, psiquiatras, homens de leis e médicos de otorrinolaringologia. Devíamos debater em conjunto o problema do implante. Uma rapariga surda pôs-se a falar da surdez como de uma minoria racial. Os pais dela são surdos, e há n gerações de surdos antes dela, na família não há uma única pessoa que oiça, por isso ela concebe a surdez como uma raça à parte. O meu pai ficou furioso. Chocado, não podia admitir aquele termo. Foi a primeira vez que o vi zangado àquele ponto:
" O que é que isso quer dizer, a palavra " raça "? Que voltámos ao tempo do fascismo? Também quer reivindicar a raça ariana? Então eu o que é que sou em relação à minha filha?
Quer dizer-me que eu sou duma raça diferente da dela? Somos da mesma raça!"
Intervim para dizer à rapariga:
" A palavra " raça " não me parece adequada à comunidade dos surdos."