O voo da Gaivota 1 | Page 130

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O implante para mim é como uma violação. Que o adulto consinta, é problema dele; mas que os pais sejam cúmplices do cirurgião para impor essa violação ao filho, assusta-me.
Tenho medo da sua " orelha electrónica ", senhor implantador. Está a ir longe de mais. Debruce-se sobre a sua deontologia e dê-lhe ouvidos. Estou certa de que ela irá murmurar-lhe alguma coisa.
Como de costume, o senhor empunha o estandarte da ciência, do progresso. Mas não sabe nada acerca do ser humano surdo, de que fala. Qual a sua psicologia, os seus saberes. Ignora o
futuro da criança surda que pretende modificar.
O surdo tem uma qualidade de vida. Uma adaptação a esta vida. Desabrocha com a língua gestual. Consegue falar, escrever, conceptualizar com a ajuda de duas línguas diferentes.
Seja como for, as crianças surdas de pais surdos não têm outra escolha. E o que é verdade é que a surdez em família constitui um mundo diferente do vosso. Aceitem-no.
Todos esses sons que vos envolvem, esses ruídos, imagino-os à minha maneira. Descobri-los de forma brutal seria por certo decepcionante, traumatizante, infernal. Ter outra concepção do mundo diferente da que me proporcionam os meus olhos?
É impossível. Iria perder a minha identidade, a minha estabilidade, a minha imaginação, iria perder-me a mim própria. O sol que sai do coração perder-se-ia num universo desconhecido. E eu recuso-me a mudar de planeta.
Certa vez uma menina perguntou-me a medo:
" Por que é que eles dizem que é bom pôr um aparelho na cabeça? Tem algum mal ser surdo?"
Chego a interrogar-me se tudo isto não andará a esconder um lobby, como se costuma dizer, para proteger os fabricantes desses aparelhos. Fazem tanto barulho que se calhar trata-se de um mercado importante. Face ao que custa um implante, entre três mil e quatro mil e quinhentos contos...
Esse mundo de ruído, do vosso ruído, não o conheço nem me faz falta. Dou graças pela família que tenho e que me deu uma cultura do silêncio. Falo, escrevo, faço gestos, é por tudo isto que já não sou uma gaivota que grita sem o saber.