O voo da Gaivota 1 | Page 129

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O senhor ignora o limiar de tolerância individual à recepção desses sons codificados. Os adultos queixam-se; quanto às crianças, têm que os suportar pois não sabem controlar o aparelho e desligá-lo quando lhes dói. Sofrem.
Apresenta-nos resultados positivos, difíceis de contestar, uma vez que não podemos controlá-los. Resultados ditos " variáveis ": 50 por cento de êxito; 25 por cento de resultados médios, de pessoas que precisam ainda de ler nos lábios após uma longa reeducação, evitando usar o aparelho em ambientes ruidosos( mas que progresso!); e por fim 25 por cento de resultados negativos. Estes últimos nunca conseguirão ouvir senão ruídos impossíveis de identificar, e desligarão o aparelho definitivamente.
E pretende impor semelhante estatística? Por que não aceitar uma avaliação imparcial?
O que é que se faz quando se está incluído nesses 25 por cento de resultados negativos e se tem três anos de idade? Vinte anos
depois vai-se ao seu consultório protestar?
Não é possível. Sabe bem que não há nada a fazer! O implante causa danos irreversíveis. Se restassem algumas possibilidades auditivas à cóclea do implantado, seriam definitivamente destruídas. Qualquer que fosse a idade.
Investigadores de renome falam de " códigos de entrada biológicos " das mensagens sonoras sobre o nervo auditivo, os " índices neuronais ". No entanto, desconhece-se ainda o seu funcionamento. No dia em que esses investigadores conseguirem
decifrar os referidos índices, têm a certeza de que os senhores não passarão também a ser apelidados de " velharias "?
Quer saber a história daquela menina a quem fizeram um implante e que dizia a chorar:
" Tenho uma aranha na cabeça!"
Isto porque ela não conseguia, apesar da reeducação intensiva que lhe fizeram após o implante, descodificar os sons convenientemente.
Nunca ouviu falar daquela rapariga que se suicidou três anos depois de lhe terem feito o implante, porque psicologicamente não aguentou todo aquele barulho que passou a rodeá-la?