O voo da Gaivota 1 | Page 127

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Quando em 1620 um monge espanhol inventou os rudimentos da língua gestual, que mais tarde o abade de 1 ' Épée desenvolveu, nenhum deles podia imaginar que a extraordinária esperança que tinham trazido ao mundo dos surdos ia ser
brutalmente extinta. O abade tinha fundado um instituto especializado para a educação dos surdos.
No século XVIII a sua fama era tal que o rei Luís XVI foi pessoalmente admirar o seu ensino. Era uma autêntica revolução, toda a Europa se interessou por aquele sistema.
No século XIX, surge a proibição oficial. A " mímica ",, como lhe chamaram, tem que desaparecer das escolas. Foi rejeitada como sendo indecente e porque pretensamente impedia os surdos de falar. Afastada porque catalogada como " língua de macaco "!
As crianças passaram a ser obrigadas a articular sons que nunca tinham ouvido nem nunca viriam a ouvir. Reduziram-nos a subdesenvolvidos. Médicos, educadores, igrejas, o mundo dos que ouvem uniu-se com uma incrível violência contra nós. Só a palavra imperava.
Foi preciso aguardar pelo decreto de 1991 para que a proibição fosse levantada. Para que os pais pudessem escolher o bilinguismo para os seus filhos. Uma escolha importante, pois permite à criança surda ter a sua própria língua, desenvolver-se psicologicamente, e também poder comunicar em francês oral ou escrito, como os outros. Tinha passado um século sobre aquilo que apelido de terrorismo cultural por parte dos que ouvem. Uma loucura! Um século sombrio, durante o qual, na Europa, os surdos foram privados da luz do conhecimento e tiveram que se submeter. Enquanto nesse tempo, nos Estados Unidos, por exemplo, a língua gestual era um direito e tornou-se uma verdadeira cultura por inteiro.
Mas actualmente, com o progresso científico e médico, com a invenção do implante coclear, a hegemonia dos que ouvem sobre nós vai mais longe.
O implante, essa máquina infernal, transforma as ondas sonoras em correntes eléctricas. É preciso colocar eléctrodos de platina no ouvido interno. Esses eléctrodos são ligados a um microcomputador implantado sob o couro cabeludo com uma quinzena de fios. Uma pequena antena escondida atrás da orelha e ligada a uma caixa transmite ao computador os sons do mundo exterior. O microcomputador só tem que codificar os