O voo da Gaivota 1 | Page 126

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Somos uma minoria, os surdos profundos de nascença. Com uma cultura específica e uma língua específica. Os médicos, os investigadores, todos os que querem transformar-nos a qualquer preço em ouvintes põem-me os cabelos em pé. Fazerem-nos ouvintes é aniquilar a nossa identidade. Querer que à nascença deixe de haver crianças " surdas," é desejar um mundo perfeito. Como se quiséssemos que fossem todos louros, com olhos azuis, etc.
Então deixava de haver negros, pessoas duras de ouvido?
Por que não se há-de aceitar a imperfeição alheia? Toda a gente tem alguma coisa de imperfeito. Em relação a vocês, que ouvem, a Emmanuelle é imperfeita. Está previsto que se nasça com ouvidos para escutar e boca para falar. Todos iguais. Ser-se o mais possível idêntico ao parceiro do lado. Comparo-me aos índios da América do Norte, que as civilizações europeias e cristãs aniquilaram. Os índios falam muito por gestos, também. Tem graça... e é estranho.
Os outros ouvem, eu não. Mas tenho olhos, que forçosamente observam melhor do que os deles. Tenho as minhas mãos, que falam. Um cérebro que armazena as informações à minha maneira, segundo as minhas necessidades.
Não vou considerá-los imperfeitos a vocês, que ouvem.
Aliás, nunca me permitiria fazê-lo. Pelo contrário, só desejo a união entre as duas comunidades, com respeito mútuo. Eu dou-vos o meu, dêem-me o vosso.
O mundo não pode nem deve ser perfeito. É essa a sua riqueza. Mesmo que um investigador consiga detectar o gene que
faz com que nasçam crianças surdas profundas, como eu, mesmo que ele conseguisse esquadrinhar todo esse gene, trata-se de um princípio que eu recuso.
Compreendo perfeitamente que um adulto que fique surdo depois de sempre ter ouvido necessite de ajuda. Esses ficam súbita e brutalmente deficientes. Ficam privados de um sentido ao qual estavam habituados, da sua cultura, da sua maneira de agir, da sua
como eu. Nas pequeninas gaivotas da minha tribo que há espalhadas por todo o mundo. Deixem-lhes a possibilidade de escolher, a possibilidade de se realizarem nas duas culturas.
A história dos surdos é uma longa história de combate.