O voo da Gaivota 1 | Page 119

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somos três milhões e meio de surdos. Que eu saiba, ninguém nos tirou o direito de voto! Bem sei que há os jornais, mas aquilo que diz um político no momento próprio, a sua expressão, a maneira como diz, as palavras que utiliza, tudo isso também conta.
Um dia, num clube de motards surdos tive a surpresa de ouvir opiniões racistas! O único político que eles entendem mais ou menos, lendo nos lábios, é um senhor cujo nome nem me apetece escrever aqui. De todo.
Estes jovens surdos disseram-me:
" Votámos nele porque utiliza palavras simples, lêem-se facilmente nos lábios. Articula bem. Quanto aos outros, não se percebe nada do que dizem."
" A França para os franceses.", Mas o que fica oculto no discurso em termos de racismo, de exclusão, de todos os perigos que os ouvintes podem avaliar, os surdos não detectam.
Num programa legendado quem veio à televisão dizer-lhes:
" Vejam o que diz este homem que não é humanamente suportável?", Que de seguida utilizem a sua escolha, isso é lá com eles, mas o que me põe os nervos em franja é que não lhes foi facultada uma real opção.
Fico tão chocada que aqueles pobres rapazes votem unicamente naquilo que conseguem perceber lendo nos lábios daquele homem! Ou que não votem, por não perceberem nada nos lábios dos outros! Disse-lhes:
" Um dia, na história, um outro homem que articulava tão bem que gritava cada sílaba, colou uma estrela amarela no peito dos judeus, um triângulo cor-de-rosa nos homossexuais e um triângulo azul nos deficientes. Entre estes havia surdos. Estrelas e triângulos foram exterminados, cada qual com a sua cor. Aquele homem mandou esterilizar os surdos para que não pudessem ter filhos."
É preciso que os políticos façam um esforço para além doslegendados institucionais que acompanham o discurso de Natal do Presidente da República. Não é no Natal que se vota!
Isto enerva-me.
Um dia encontrámos num colóquio o ex-ministro dos deficientes e acidentados, ele próprio numa cadeira de rodas. Era simpático, mas: