O voo da Gaivota 1 | Page 118

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progenitores todo-poderosos. Tinha por eles uma devoção total. É evidente que a anormal única no mundo " se sentia culpada por existir e ao mesmo tempo feliz por existir graças a eles. Mas aquela história começou a atormentá-la. Tinha necessidade de saber, de acabar com a incerteza. Apostou com o colega, que ouvia, que havia ela própria de ir verificar e pôr tudo a limpo, certa de que os pais tinham razão.
Uma sexta-feira depois das aulas meteram-se ambos no metro. Na véspera dos fins-de-semana a estação pulula literalmente de jovens surdos. Ali se acotovelam todas as nacionalidades e toda a gente gesticula e conversa animadamente.
Sílvia olhava atónita aquele rebanho que bloqueava quase toda a estação. O que é que eles estavam a fazer? Por que é que gesticulavam? O que é que aquilo queria dizer? Acabou por se convencer de que eram todos surdos. Todos. Aqueles homens, aquelas mulheres, aqueles jovens, eram todos surdos. O choque foi tal, tão violento, que ela começou a vomitar, com as entranhas sacudidas e o cérebro do avesso. Surdos às dezenas? às centenas? Não conseguia aceitar. Não podia admitir aquilo que acabava de descobrir aos quinze anos.
De volta a casa foi um drama. Os pais pagaram pelo seu silêncio culpado, inaceitável. Sílvia desatinou. Raiva, humilhação, fúria, como é que os próprios pais tinham podido enganá-la àquele ponto? A resposta dos pais foi: " Era para teu bem."
Era, caro senhor e cara senhora, para a afastar dos seus iguais. Para os vizinhos não saberem. Para que a vossa filha, caro senhor e cara senhora, se esforçasse por falar para se parecer convosco, não com ela. Sobretudo, não com ela.
Sílvia exigiu que os pais a mudassem de escola para encontrar outros surdos. Cheia de coragem, começou a aprender a língua gestual e a pouco e pouco, com muita dificuldade, mas também com muita determinação, fez os possíveis por se integrar num mundo onde apesar de tudo permanecia à margem, tanto dum lado como do outro. E com o correr dos anos o seu comportamento mudou. A língua gestual permitiu-lhe desabrochar, ser feliz. Disse-me que agora já tinha perdoado aos pais. Gosto muito da Sílvia, pela sua coragem. Por aquilo que suportou e conseguiu ultrapassar.
Quinze anos de mentiras! Isto enerva-me.
É como na política. Quando há um discurso político na televisão, nunca tem legendas, a não ser alguns de François Mitterrand, e nós