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E dizê-la. E ser bilingue.
Isto enerva-me. Mas para a minha amiga é importante. Não gostaria de estar no lugar dela. Os pais amam-na é um amor egoísta, querem-na à sua imagem. Os meus aceitaram maravilhosamente a diferença e partilham-na comigo. Mas ela não pode partilhar nada de importante com a mãe. Como é que ela pode contar-lhe o que sente intimamente, todos os seus problemas de garota, de rapariga, as suas histórias de amor, as decepções, as alegrias?
A comunicação mantém-se superficial com as palavras que utiliza. Nestas condições, é normal que ela não consiga entender-se bem com os pais. Eles não sabem nada acerca dela, ou quase nada, e ela não sabe nada acerca deles. Está tão só!
Mas ainda há pior. A história alucinante de uma amiga minha que vive no seio de uma família que custa a crer que exista.
A Sílvia, até aos quinze anos, estava persuadida de que era a única pessoa surda no mundo. A ÚNICA. Isto não é força de expressão, é a realidade. Os pais tinham-lhe simplesmente dito que ela era a única representante da raça dos " duros de ouvido ". Um monstro excepcional. Já agora, digna de ir parar a um circo, por que não? E ela ia crescendo na ignorância, na solidão da sua diferença única. Esforçando-se desesperadamente para falar como o papá, como a mamã, como as coleguinhas da escola, todas elas ouvintes. Carregava sozinha a sua " maldição ".
Quando eu era pequena e me disseram que era surda, pensava que tinha o nervo auditivo podre. Era isso que eu imaginava. Mas os meus pais corrigiram-me logo:
" Não, não, o teu nervo não apodreceu. Está lá, é como o nosso, só que não funciona."
Desde então, foi essa a ideia que guardei acerca da minha surdez: o meu nervo auditivo não funciona. Obrigada. É a verdade e ainda por cima é simples.
E no que respeita à Sílvia? Nem sequer pode imaginar o que quer que seja. Nada. Visto não conhecer a verdade.
Mas como a verdade acaba sempre por se saber, um dos colegas de escola traiu o segredo da família. Explicou à Sílvia que existiam muitos outros surdos, que ele próprio os tinha encontrado pessoalmente na estação do metro. Ela não queria acreditar. Nem lhe passava pela cabeça duvidar da palavra sacrossanta dos