116
A minha amiga revoltou-se. Mais tarde explicou-me que o relacionamento dela com os pais era uma loucura. Tinham discussões monumentais. Por vezes apetecia-lhe explodir e atirar com a mobília ao chão, de tal maneira sentia necessidade de descarregar fisicamente. O pai era violento. O ambiente era permanentemente agressivo, conflituoso.
Fiquei alucinada com aquele comportamento. Nunca poderia imaginar semelhante relação com a minha mãe ou com o meu pai.
Por fim, acabei por não aguentar ir a casa dela e era ela que vinha à nossa, para podermos falar livremente. No entanto, ela forçava-se a falar oralmente com a minha mãe, embora sabendo que ela conhece a LGF.
Desforrávamo-nos à noite, à conversa durante horas no meu quarto. Ela contava-me a sua vida e eu a minha. Isso aliviava-a.
Os pais tinham dela uma imagem negativa. Consideravam-na uma deficiente, uma doente. A filha deles nunca será " normal ",, a não ser que consiga esconder a surdez e é por isso que a obrigam a falar. Pensam, como muita gente, que se a criança se habitua a falar por gestos nunca virá a falar. Ora isso não tem nada a ver. Aos sete anos eu falava, mas dizia uma coisa qualquer. Com os gestos, comecei a falar muito melhor. O francês oral já não era uma obrigação; por isso, psicologicamente tornava-se mais fácil de aceitar. Em seguida tive acesso a informações importantes: os conceitos, a reflexão. A escrita tornou-se mais simples e a leitura também. Fiz tais progressos que considero uma injustiça privar uma criança de ter essa oportunidade.
Não se deve pensar que é forçoso uma criança falar para saber
ler e escrever. Eu, quando estou a ler um romance, associo instintivamente o gesto à palavra que estou a ler. E seguidamente leio com mais facilidade nos lábios de quem a pronuncia.
A minha memória visual associa mesmo na perfeição a ortografia francesa. Uma palavra é uma imagem, um símbolo. Quando me ensinaram " ontem," e " amanhã ", em língua gestual, quando apreendi o sentido, passei a verbalizar com muito mais facilidade, a escrever com muito mais facilidade!
Uma palavra escrita tem cara de palavra, como um palhaço tem cara de palhaço, como a minha mãe tem a cara da minha mãe, a minha irmã a cara da minha irmã! Posso reconhecer a cara de uma palavra! E desenhá-la no espaço! E escrevê-la!