O voo da Gaivota 1 | Page 115

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" É um inferno, é completamente louco este trabalho a dobrar. Alguns colegas meus conseguiram fazer a admissão à faculdade ou uma licenciatura, mas são casos excepcionais."
A minha amiga sofre de surdez profunda, como eu. Aprendeu a língua gestual ainda há pouco tempo, mas os pais dela
não; portanto, por esse lado não tem qualquer ajuda.
Mesmo assim fez o liceu, os preparatórios de biologia e de matemática especial e repetiu o primeiro ano. A última notícia que tive foi que passou para o terceiro ano.
Repete-se sempre um ano quando se é surdo. É impossível que as coisas se passem de outra forma quando se assimila unicamente cinquenta por cento das aulas, a ler nos lábios.
Isto enerva-me.
Uma condiscípula do Morvan abandonou a escola no segundo ano para ir com os pais para a província. Enquanto ainda frequentava as aulas dizia-me muitas vezes:
" A tua mãe fala a língua gestual, é extraordinária." Ela queria tanto que os pais aprendessem!
Quando eu ia passar a tarde a casa dela jantava com a família. Como é evidente, eu não ia ficar calada toda a noite; da primeira vez falei com ela em língua gestual. Imediatamente os pais me interromperam:
" Não, tens que falar oralmente.,"
" Mas eu estou a conversar com ela, não me vou pôr a oralizar com uma surda."
Eu achava aquilo tão artificial, tão estúpido! Para falar com eles, estava certo, visto não conhecerem a minha língua. Mas com a minha colega?
" Desculpem, mas acho ridículo falar com ela oralmente!" Fala, senão não entendemos nada do que dizes!"
Não só a impediam de se exprimir naturalmente comigo, como ainda por cima queriam compreender tudo o que dizíamos uma à outra! Nesta história, onde é que entra a liberdade?