O voo da Gaivota 1 | Page 109

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chega docemente, fazendo voar um pouco os cabelos, perfumada, vibrante sobre a pele dourada.
Já gosto um pouco mais de mim.
Por acaso encontro um grupo de surdos. Italianos, espanhóis, tagarelamos, eu aprendo a " pronúncia " deles, a sua língua gestual e eles a minha.
É a independência total, na companhia da minha melhor amiga. Ibiza é uma maravilha. Fala-se de tudo. Recomecei a ler.
Leio imenso. Mas há outros motivos de alegria. Para começar, o da verdadeira independência; ter um porta-moedas, o meu próprio orçamento, dinheiro que ganhei e ter cuidado com o que gasto. Não há a quem prestar contas a não ser a mim mesma.
Quaisquer que sejam as contas.
Estou melhor. Sinto-me bem. Cada dia melhor. Sinto-me responsável, livre, não estou sujeita a nenhuma autoridade. Sou eu comigo.
E não faço asneiras.
A minha mãe telefonou. Lá conseguiu encontrar-me debaixo do meu sol para me dar a notícia de outro sol: Ariane Mnouchkine vai fazer um filme. E precisa de figurantes.
Tenho que me despachar para apanhar o barco e em seguida o comboio para estar a tempo no local das filmagens: a Assembleia Nacional.
Tenho tanto medo de já não ter dinheiro suficiente para o regresso que lhe peço que me mande algum. Na realidade, verifico ao chegar que não tinha sido preciso, que tinha sabido controlar devidamente o orçamento da minha independência!
Ariane escolheu os figurantes do seu filme entre os actores do teatro do Sol; é o planeta Terra em miniatura. Há chineses, indianos, negros e judeus, árabes, deficientes, cegos, anões e surdos. Um autêntico caleidoscópio, um ramo de flores diferentes para estarem presentes no filme da declaração dos direitos do homem. É a minha cena. Sou uma flor entre as outras, atingida pela vida num raio de câmara sol.
O meu papel durou trinta segundos. Eu ouvia o relato dos direitos do homem, um intérprete traduzia, e à minha volta os surdos diziam: