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" É formidável, somos todos iguais, finalmente temos direitos." E eu era um deles.
Ariane Mnouchkine é impressionante em termos de autoridade e de precisão. Eficaz, voluntariosa e sensível, vê tudo, vigia tudo. Chamamos-lhe em língua gestual " a mulher com os braços sobre as pernas.,"
Entre os actores que ela dirige, conheci um arménio, Simon.
Ele não utiliza nem a palavra nem a língua gestual e no entanto não tem a menor dificuldade em comunicar com os surdos. Este
homem tem um dom extraordinário para falar com as mãos. Uma fantástica capacidade para exteriorizar.
Tanto ele como toda aquela gente me dá vontade de ir mais longe. De prosseguir no caminho do teatro.
Em seguida participei na festa do Regard, que reúne surdos e ouvintes para curtas metragens com cerca de cinco minutos.
Numa dessas festas, o tema escolhido era o Preto e o Branco.
Pedi ao meu tio que escrevesse alguma coisa acerca do dia e da noite. Éramos duas, Clara, a minha amiga de infância, e eu. Eu era a noite e ela o dia. Traduzimos o diálogo em língua gestual, improvisando um pouco.
CLARA DE DIA: Bom dia, minha senhora.
EMMANUElLE DE NOITE: Bom dia porquê? Bem sabe que sou a noite. Senhor dia, está a fazer troça de mim!
De outra vez, sempre com a Clara, interpretávamos as duas mãos. Clara era uma mão e eu a outra mão. As duas mãos discutiam. Representávamos uma briga, a separação e a reconciliação. As mãos que trabalham e as que nada fazem. As mãos dominantes e as dominadas.
O tema seguinte era livre. Éramos vários adolescentes vestidos de branco sob a luz dos ultra-violetas. A história tinha um bonito efeito visual: uma criança adormecia na escola e começava a sonhar. Havia efeitos especiais: via-se a cabeça dela separar-se do corpo, dos braços, das pernas, e ir-se embora. O sonho transformava-se em pesadelo, um pouco agitado, a cabeça parecia passear sozinha para um lado, e o corpo sem cabeça para o outro. Era muito bonito. O