O voo da Gaivota 1 | Page 107

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Penso em mim naquela idade. Elas têm a sorte de poder executar tão cedo gestos assim perfeitos, tão bonitos, eu comecei muito tarde. As suas mentes abrem-se e elas fazem montes de perguntas.
Ser surdo é uma coisa má?" " Claro que não."
Por que é que os médicos dizem que temos que nos tratar? Quer dizer que vamos morrer?"
" Que ideia! Vou-te explicar..."
Conto-lhes também as histórias do Tin-Tin, traduzo os balões, os diálogos, faço de capitão Haddock no Tin-Tin no Tibete.
Segundo emprego. Desta vez são dois rapazes, com sete e quatro anos. É mais difícil com rapazes, nunca estão parados.
O mais pequeno é infernal. Tenho dificuldade em mantê-los sossegados. E são muito barulhentos. No que me diz respeito, tanto me faz que gritem ou que batam com as portas, não me afecta, mas penso nos vizinhos de baixo, que ouvem.
" Quietos! Pensem um pouco nos outros!" Decididamente tenho crescido, já falo como a minha mãe. Mas eles não ligam nenhuma. " Queremos lá saber! Somos surdos!" " Está bem, mas as outras pessoas ouvem!"
Preferia viver num prédio de surdos, assim ficávamos mais à vontade! "
Ele é engraçado e faz-me rir. Hoje em dia rio-me de coisas reais, vivas, construtivas. Rio das pequenas alegrias, do sorriso dos outros, do Verão que me oferece uma trégua. E da sensação de ter um futuro à minha frente.
Ganho algum dinheiro com os meus marotos que batem com as portas e deixo-os para ir de férias.
Arranjo umas pequenas tarefas em casa do meu avô Labo. Henri Laborit, o meu avô paterno, é um senhor impressionante.