O voo da Gaivota 1 | Page 106

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Sim. Apetece-me primeiro ver o mundo, abrir-me um pouco mais a este universo, esvaziar os meus receios. Já o disse e repito. Receio vagamente o mundo dos que ouvem. Já é tempo de o agarrar de caras. Os meus pais dizem-me:
" Acaba primeiro o liceu. Se desistes o que é que vais fazer a seguir? Acaba o liceu primeiro!"
Desta vez não digo " vai falando ". Não sei o que farei a seguir, mas sei o que vou fazer no liceu.
Gaivota, já tens uma ideia na cabeça.
Acabar o liceu no Instituto Morvan vai exigir-me três anos, os dezassete, os dezoito e os dezanove anos.
Está assente, com dezassete anos resolvo estudar. Hei-de conseguir passar no exame, nem que tenha que arrancar a cabeça. O regresso às aulas será a sério. Quanto à independência que pretendo, terei que ser eu a consegui-la, senão quem ma dará?
Mas primeiro preciso de sol. Tenho que olhar pela minha saúde. Arranjo uns trabalhos de baby-sitter como fazem todas as raparigas. Vigiar criancinhas faz-me bem. Faz-me regressar à minha infância. Quando a minha mãe me dizia:
Não atires com as portas! Lá porque és surda, não deves fazer barulho! "
As crianças surdas são barulhentas. Penso nos vizinhos do andar de baixo e digo como a minha mãe:
" Não batas com os pés no chão, não atires a bola à parede, não saltes assim..."
Primeiro emprego: duas irmãs. Uma é surda e a outra não.
Tal como eu e a Maria. Mas ao contrário, a que ouve é a mais velha. Tem nove anos e a outra seis.
Falamos em língua gestual.
A linguagem delas é infantil, diferente da dos adultos, é adorável. São tão amorosas com as suas mãozinhas a dançar que me apetece comê-las. Os gestos são de grande precisão, talvez mais do que as palavras duma criança que ouve.