O voo da Gaivota 1 | Page 105

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história. Todos os sábados fazia um longo trajeto de hora e meia para ir a Vincennes, de autocarro, em seguida de comboio e por fim de metro. Era longo e cansativo para uma menina de nove anos e muitas vezes adormeci. Foi a partir daí que, juntamente com o Ralph, escrevemos a continuação.
Quando ele se foi embora tive muita pena, durante bastante tempo fiquei inconsolável. Eu adorava aquele homenzarrão meigo, criativo, entusiasta. Ensinou-nos imensas coisas. Gostava sobretudo do que ele nos ensinava em cena. A minha paixão.
O teatro era um sol na minha vida de criança. Devo o meu nome, em língua gestual, ao teatro, " O Sol que Sai do Coração ". A atriz surda Chantal Liennel escreveu um poema que dizia: Obrigada, meu pai, obrigada, minha mãe, por me terem dado o sol que sai do coração."
Em Vincennes, Alfredo Corrado só se encarregava do teatro para adultos. " Acaba o liceu ", dizia-me ele, " e depois veremos do que és capaz."
Certa vez fiz um pequeno papel para a televisão. As filmagens foram na feira de Trône. Tinha eu nove anos. Foi o paraíso! Havia lá cães de circo, todos brancos, o meu papel era pentear a longa cabeleira de uma sereia e dizer-lhe como era bonita. Mas a minha sereia não se deixava pentear. Foram precisos dez takes! No final, ela enervou-se e foi para o camarim, a chorar. Eu estava cheia de medo que ela desistisse. Cheia de medo de perder o meu pequeno papel na magia do cinema. Quando ela regressou, dei-lhe um beijo. E o décimo primeiro take saiu bem. Fiquei radiante!
Adoro cinema. Creio que vi todos os filmes de Chaplin.
Charlot é a minha referência. Riso e emoção. É a prova de que as palavras não são indispensáveis quando se sabe falar com o corpo. Prova de que o génio não se fabrica forçosamente com frases. Charlot era um profeta. O Ditador é disso o maior testemunho. Aquele homem que brinca com um balão que representa o mundo, que o atira, o faz girar como um pião, torna a agarrá-lo, inverte-lhe os pólos- até o balão lhe rebentar na cara! Chaplin chega a toda a espécie de público, a toda a gente. Sonho com um novo Chaplin para me lançar na aventura do cinema. Por que não?
Mas em França o cinema é para as pessoas que ouvem, com excepção dos filmes americanos legendados. Gostaria eu de me integrar no mundo dos ouvintes? De ver outra coisa?