O voo da Gaivota 1 | Page 104

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19 Sol-Sóis
Pela primeira vez desde há muito tempo penso no futuro.
Aos sete anos, quando aprendi a língua gestual, interrogava-me muito acerca do futuro. Conseguirei ter uma profissão?
Como é que irei viver? O que é que eu posso aprender? Dir-se-ia que é o regresso da minha consciência. A mesma água fresca da curiosidade, da vontade, da descoberta do futuro. A adolescência, a turbulência e tudo o resto, acabou tudo.
Futuro? Falo dele com a minha mãe. Que caminho escolher? Que via? Estaria eu disposta a trabalhar com surdos?
De estar só com surdos? De ir para a universidade? Depois, poderia ser eu a educar os outros, dando-lhes uma formação bilingue.
Mas do que eu sempre gostei foi da arte e da criatividade. Onde é que eu poderia aprender isso sendo surda?
Talvez eu não tenha forçosamente que ir para a Universidade. Posso aprender a viver de outra maneira, noutro local.
No teatro, por exemplo. Tive sempre o sonho de ser atriz de teatro. Esse desejo entrou na minha vida absolutamente por acaso, quando era ainda pequena. Com oito ou nove anos fiz um estágio de teatro que durou quinze dias. Eu e outras três crianças surdas ensaiávamos às quartas e sábados. Tínhamos que representar com máscaras feitas por nós. Ralph Robbins, que dirigia esse estágio, tinha vindo de Nova Iorque para a criação do IVT. Fez-nos trabalhar a expressão corporal. Aquilo era muito importante para nós. Como crianças, tínhamos sobretudo o hábito de observar os rostos; para nos libertar desse entrave, Ralph fez-nos usar máscaras brancas, neutras, desprovidas de expressão. Percebi o que ele queria: que usássemos o corpo para nos fazermos entender. Era difícil, mas era também apaixonante. Eu sentia uma grande excitação por poder comunicar igualmente com o meu corpo.
A minha " carreira " no teatro começou com ele, com uma peça pequenina intitulada Viagem ao Fim do Metro. Era a história de uma menina que adormecia na carruagem e se esquecia de descer na estação. No fim da linha perdia-se nos corredores e encontrava um mágico, um homem com quatro braços. Era um pouco a minha