O voo da Gaivota 1 | Page 101

101
Uma noite estendi-me ao comprido no corredor, acordei a minha madrasta e o meu pai. Teve que me levantar e levar-me para a cama. Sentia-me doente, doente como nunca tinha estado.
O meu pai sentou-se ao pé de mim, na beira da cama, à luz da madrugada. O rosto dele mete-me medo. Sinto vergonha que ele esteja ali a contemplar aquele desastre, que tivesse visto em que estado eu vinha. Tenho vergonha, mas está tudo tão mal na minha cabeça, na minha pele... Digo-lhe:
" Ontem bebi de mais." " Eu sei. Não precisas de explicar. Já entendi.", Está inquieto.
" O álcool, é suposto pôr-nos alegres, estimular o prazer da dança, da festa. Todo o grupo bebe."
Tento explicar ao meu pai que não é nada de grave.
" É perigoso, muito perigoso. Mau para o cérebro. Mata as células nervosas, percebes? Olha para mim, Emmanuelle. Por que é que fazes isso? Não compreendo."
Nem eu. Julgava que era para me divertir, fazia-me voar, planar, esquecer. Mas esquecer o quê? Até já me esqueci do que queria esquecer. Era-me impossível explicar-lhe como me sentia mal pela simples razão de existir. Talvez eu tivesse vontade que ele tomasse conta de mim, vemo-nos tão pouco. Talvez fosse a necessidade de o provocar. A necessidade dele. Para quê o álcool, para quê os cigarros uns atrás dos outros, dançar toda a noite, rir até romper o dia, para cair como um cepo, embrutecida e acordar com aquele aspecto? Não sei.
" Tens de me dizer porquê, Emmanuelle."
O meu pai é um filósofo, um teórico. Um autêntico psiquiatra. Um pai muito surpreendido perante a gaivota que gerou. Ultrapassado pelo seu voo, desorientado. Gostaria muito de ouvir respostas no género: " Tenho medo do mundo, não amo a vida "; e talvez também: " Sou surda, tenho problemas."
Quando regressámos de Washington resolveu trabalhar com surdos. Não pára de afirmar que não há a " psicologia do surdo " e que há diferenças entre os surdos precisamente como há entre as pessoas que ouvem. A língua é que é especial. Muita gente parte do