O voo da Gaivota 1 | Seite 102

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princípio de que os surdos não conseguem estabelecer contatos, manter um relacionamento normal com quem ouve.
O meu pai bate-se contra essa ideia. Os surdos são como os ouvintes, há doentes mentais surdos como os há entre as pessoas que ouvem, não é uma particularidade que nos esteja reservada. Os surdos estão bem, muito obrigada. No entanto, talvez de momento ele receie que o meu comportamento actual tenha a ver com a minha surdez. Que me seja difícil adaptar-me ao mundo que me rodeia, que seja por causa disso que me refugio no álcool e na paródia. Mas eu não acho. Não é isso, meu pai.
Não sou a única. A adolescência é terrível para certos jovens. Surdos ou não. Há aqueles que navegam à vontade entre os treze e os dezoito anos, sem problemas, os que se enganam no rumo, os que avançam em frente na tempestade, como eu, os que nunca regressam e aqueles que um dia agarram numa bóia para porem a cabeça fora de água. Tudo isso depende de muitos
parâmetros. A educação, o carácter, o amor, o meio social.
A adolescência é uma alquimia complicada. Procura-se a pedra filosofal, como se ela existisse.
O meu pai bombardeia-me com perguntas: Qual é o problema? Onde estão as frustrações? É por causa do liceu? Estou apaixonada? Por que é que bebo, porquê isto e mais aquilo, porquê tudo?
E eu só tenho uma resposta para aquela avalanche de perguntas: " Não me sinto bem na minha pele. Preciso de ti." Silêncio mortal. Reflexão. Emoção. Perturbação. Mal-estar.
Visualmente, instintivamente, sinto nele tudo isso. Mas isso não é uma resposta.
" Amanhã levo-te ao médico. Quero saber como vai a tua saúde." " Está bem."
Está bem no que respeita ao médico. Mas continua a não ser uma resposta.
Ele não pode tomar conta de mim. Não sabe. Ou não quer.
É o que penso na altura, friamente. Foi como o abrir de uma nova chaga que vai levar o seu tempo a cicatrizar.