O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 95

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Continuei viajando através da memória de Manuel até topar com uma fotografia que não parecia encaixar com o resto. Era uma menina de uns 8 ou 9 anos caminhando sobre um pequeno cais de madeira que penetrava numa lâmina de mar luminosa. Estava de mãos dadas com um adulto, um homem vestido de terno branco, cortado pelo enquadramento. No fundo do cais, aparecia um pequeno bote à vela e um horizonte infinito, no qual o sol se punha. A menina, que estava de costas, era Cristina. — É a minha predileta. — Onde foi tirada? — Não sei. Não me lembro desse lugar, nem desse dia. Não estou nem muito certa de que o homem da foto é meu pai. É como se esse momento nunca tivesse existido. Faz anos que a encontrei num álbum de meu pai e nunca consegui saber o que significava. É como se ela quisesse me dizer alguma coisa. Fui passando as páginas. Cristina ia contando quem era quem. — Olhe, essa sou eu com 14 anos. — Eu sei. Cristina me olhou com tristeza. — Eu não percebia, não é mesmo? — perguntou. Dei de ombros. — Nunca poderá me perdoar. Preferi passar as páginas a fitá-la nos olhos. — Não tenho nada que perdoar. — Olhe para mim, David. Fechei o álbum e fiz o que me pedia. — É mentira — disse ela. — Eu me dava conta, sim. E todos os dias, mas pensava que não tinha esse direito. — Por quê? — Porque nossas vidas não nos pertencem. Nem a minha, nem a de meu pai, nem a sua... — Tudo pertence a Vidal — respondi com amargura. Lentamente, pegou minha mão e levou-a aos lábios. — Hoje não — murmurou. Sabia que ia perdê-la assim que aquela noite passasse, que a dor e a solidão que a devoravam por dentro se acalmassem. Sabia que tinha razão, não porque o que tinha dito fosse verdade, mas porque no fundo ambos acreditávamos nisso e sempre seria assim.