O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 96
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Fomos nos esconder num dos quartos, como dois ladrões, sem nos atrevermos a acender
uma vela, sem nos atrevermos sequer a falar. Eu a despi devagar, percorrendo sua pele
com os lábios, consciente de que nunca mais voltaria a fazê-lo. Cristina entregou-se com
raiva e abandono, e quando o cansaço a venceu, adormeceu em meus braços sem
necessidade de dizer nada. Resisti ao sono, saboreando o calor de seu corpo e pensando
que, se a morte viesse a meu encontro no dia seguinte, eu a receberia em paz. Acariciei
Cristina na penumbra, ouvindo a tempestade se afastar da cidade por trás das paredes,
sabendo que ia perdê-la, mas que, por alguns minutos, tínhamos pertencido um ao outro, e
a mais ninguém.
Quando o primeiro suspiro da aurora roçou as janelas, abri os olhos e encontrei a
cama vazia. Saí até o corredor e fui para a galeria. Cristina tinha deixado o álbum e levado
o romance de Vidal. Percorri a casa, que já recendia a sua ausência, e fui apagando uma
por uma as velas que tinha acendido na noite anterior.
Nove semanas depois, encontrava-me diante do número 17 da praça da Catalunha,
onde a livraria Catalonia tinha aberto suas portas há alguns anos, contemplando
abobalhado uma vitrine que me pareceu infinita e coberta de exemplares de um romance
que tinha como título A Casa das Cinzas, de Pedro Vidal. Sorri com meus botões. Meu
mentor tinha mantido até o título sugerido por mim tempos atrás, quando propus a trama
da história. Resolvi entrar e pedir um exemplar. Abri ao acaso e comecei a reler passagens
que conhecia de memória e em que tinha dado acabamento apenas alguns meses antes.
Não encontrei uma única palavra em todo o livro que eu não tivesse colocado ali, exceto a
dedicatória: "Para Cristina Sagnier, sem a qual..."
Quando devolvi o livro, o vendedor me disse que não pensasse duas vezes.
— Chegou há alguns dias e eu já li — acrescentou. -— Um grande romance. Ouça o
que digo e leve um. Sei que os jornais estão colocando o livro nas nuvens, o que quase
sempre é um mau sinal, mas nesse caso a exceção confirma a regra. Se não gostar, pode
trazer que devolvo o dinheiro.
— Obrigado — respondi, agradecendo a recomendação e sobretudo o resto. — Mas
eu também já li.
— Posso lhe oferecer alguma outra coisa, então?
— Não tem um romance intitulado Os Passos do Céu?
O livreiro pensou alguns instantes.
— É do Martín, não? O da Cidade..?
Fiz que sim.