O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 94

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Nos últimos dias, pensei que estava melhor. Começou a se lembrar de algumas coisas. Levei um álbum de fotografias que ele tinha em casa, mas tinha que mostrar de novo quem era quem. Havia uma foto muito antiga, na Villa Helius, na qual você e ele apareciam dentro do carro. Você no volante e meu pai lhe ensinando a dirigir. Os dois estão rindo. Quer ver? Hesitei, mas não me atrevi a quebrar aquele instante.— Claro... Cristina foi buscar as fotos na maleta e voltou com um pequeno álbum encadernado em couro. Sentou a meu lado e começou a passar as páginas repletas de velhos retratos, recortes e postais. Manuel, como meu pai, mal tinha aprendido a ler e escrever, e suas lembranças eram feitas de imagens.— Olha, aqui está. Olhei a fotografia e lembrei com exatidão do dia de verão em que Manuel me deixou entrar no primeiro carro que Vidal comprou e me ensinou os rudimentos da direção. Em seguida, levamos o carro até a avenida Panamá e, a uma velocidade de cerca de 5 quilômetros por hora, que me pareceu vertiginosa, fomos até a avenida Pearson e voltamos, sempre comigo no volante.
— Agora você é um ás do volante— vaticinara Manuel.— Se algum dia suas histórias o deixarem na mão, pode considerar um futuro na carreira. Sorri, recordando um instante que pensava perdido. Cristina me entregou o álbum.— Fique com ele. Meu pai gostaria que o guardasse.— É seu, Cristina. Não posso aceitar.— Eu também prefiro que fique com você.— Fica em depósito, então, até que resolva pegá-lo de volta. Comecei a passar as folhas, revisitando rostos que recordava e outros que nunca tinha visto. Lá estava a foto do casamento de Manuel Sagnier e sua esposa Marta, com quem Cristina se parecia tanto, retratos de estúdio de seus avós e tios, de uma Rua no Raval com uma procissão passando e dos banhos de San Sebastian, na praia da Barceloneta. Manuel também colecionava velhos postais de Barcelona e recortes dos jornais com fotos de um Vidal rapazinho, fazendo pose na porta do Hotel Florida, no topo do Tibidabo, e outra em que aparecia de braços dados com uma beldade capaz de provocar um enfarte, nos salões do cassino da Rabasada.— Seu pai venerava dom Pedro.— Sempre disse que nós lhe devíamos tudo— replicou Cristina.