O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 93
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
De repente, ouvi a porta do quarto de Cristina se abrindo e seus passos se
aproximando. Tinha enfiado uma bata branca e jogado nos ombros um xale que não
combinava com ela.
— Peguei emprestado num dos armários — disse. — Espero que não se importe.
— Pode ficar com ele, se quiser.
Sentou numa cadeira e passeou os olhos pela sala, detendo-se na pilha de laudas que
estava sobre a mesa. Olhou-me e eu concordei com um gesto.
— Acabei faz alguns dias — disse.
— E o seu?
A bem da verdade, sentia que os dois manuscritos eram meus, mas me limitei a
concordar.
— Posso? — perguntou, pegando uma página e aproximando-se da luz.
— Claro.
Fiquei olhando-a ler em silêncio, um sorriso suave nos lábios.
— Pedro nunca vai acreditar que ele mesmo escreveu isso — disse.
— Confie em mim — repliquei.
Cristina devolveu a página à pilha e examinou-me longamente.
— Senti sua falta — disse ela. — Não queria, mas senti.
— Eu também.
— Havia dias em que, antes de ir para o sanatório, ia até a estação e sentava na
plataforma esperando o trem que vinha de Barcelona, pensando que, com sorte, poderia
encontrá-lo.
Engoli em seco.
— Pensei que não queria me ver — disse.
— Eu também pensei. Meu pai perguntava muito por você, sabia? Pediu que cuidasse
de você.
— Seu pai era um bom homem — disse. — Um bom amigo.
Cristina concordou com um sorriso, mas vi que seus olhos estavam cheios de
lágrimas.
— No fim, já não se lembrava de nada. Tinha dias em que me confundia com minha
mãe e pedia perdão pelos anos que passou na prisão. Em seguida, passavam-se várias
semanas em que mal se dava conta de que estava ali. Com o tempo, a solidão entra na
gente e não vai mais embora.
— Sinto muito, Cristina.