O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 92

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA completamente encharcados. A tempestade tinha derrubado a rede elétrica e as Ruas estavam mergulhadas numa escuridão líquida, quebrada apenas pela luz de lampiões a óleo ou velas acesas, que se projetava de balcões e portais. Não duvidei nem um instante que a portentosa instalação elétrica de minha casa teria sido uma das primeiras a pifar. Tivemos que subir as escadas tateando e, ao abrir a porta principal, o clarão dos relâmpagos revelou seu aspecto mais fúnebre e inóspito. — Se mudar de idéia e preferir um hotel... — Não, está tudo bem. Não se preocupe. Deixei a maleta de Cristina na sala de estar e fui até a cozinha pegar uma caixa de velas de vários tamanhos que guardava no armário. Comecei a acendê-las, uma a uma, em pratos, copos e taças. Cristina observava da porta. — É só um minuto — garanto. — Já tenho prática. Comecei a distribuir as velas pelos aposentos, pelo corredor e em todos os cantos até que a casa toda mergulhou numa suave penumbra dourada. — Parece uma catedral — disse Cristina. Acompanhei-a a um dos quartos que nunca usava, mas mantinha limpo e arrumado porque muitas vezes Vidal, bêbado demais para voltar para casa, passava a noite por lá. — Já trago toalhas limpas. Se não tiver roupa para trocar, posso emprestar o amplo e sinistro figurino Belle Époque que os antigos proprietários deixaram nos armários. Minhas desajeitadas tentativas de fazer humor mal conseguiram lhe arrancar um sorriso, e ela limitou-se a concordar. Deixei-a sentada na cama, enquanto corria para pegar as toalhas. Quando regressei, ainda estava lá, imóvel. Deixei as toalhas a seu lado sobre o leito e aproximei um par de velas que tinha colocado na entrada para que tivesse um pouco mais de luz. — Obrigada — sussurrou. — Enquanto você se troca vou preparar um caldinho quente. — Estou sem apetite. — Vai cair bem assim mesmo. Se precisar de alguma coisa, avise. Deixei-a sozinha e fui para o meu quarto, pois precisava tirar os sapatos empapados. Botei a água para ferver e sentei na galeria para esperar. A chuva continuava caindo com força, metralhando as janelas com raiva e formando riachos nos ralos da torre e no terraço que soavam como passos no telhado. Mais adiante, o bairro da Ribera tinha sumido numa escuridão quase absoluta.