O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 91
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
nem que fosse porque ficava ao lado de minha casa e eu podia vê-la do escritório da torre.
Era uma tarde de céu carregado com nuvens negras que cavalgavam desde o mar,
reunindo-se sobre a cidade. O eco dos trovões no horizonte e um vento quente cheirando
a poeira e eletricidade pressagiavam a chegada de uma tempestade de verão de
envergadura considerável. Quando cheguei à estação, já se viam as primeiras gotas,
brilhantes e pesadas como moedas caídas do céu. Quando entrei na plataforma à espera
da chegada do trem, a chuva já golpeava com força a cúpula da estação e a noite caiu de
repente, interrompida apenas pelas labaredas de luz que estalavam sobre a cidade,
deixando um rastro de som e fúria.
O trem chegou com quase uma hora de atraso, uma serpente de vapor arrastando-se
sob a tormenta. Aguardei junto à locomotiva, esperando que Cristina surgisse entre os
viajantes que saltavam dos vagões. Dez minutos depois, todos os passageiros tinham
descido e não havia sinal dela. Estava quase voltando para casa, pensando que talvez
Cristina tivesse resolvido pegar outro trem, quando resolvi dar uma última olhada,
percorrendo toda a plataforma até o final, prestando atenção nas janelas dos
compartimentos. Encontrei-a no penúltimo vagão, sentada com a cabeça apoiada na janela
e o olhar perdido. Subi no vagão e parei na soleira da porta da cabine. Ao ouvir meus
passos, virou-se e olhou para mim surpresa, sorrindo debilmente. Levantou e me deu um
abraço em silêncio.
— Bem vinda — disse eu.
Cristina não trazia outra bagagem senão uma pequena maleta. Ofereci minha mão e
descemos para a plataforma, que já estava deserta. Percorremos o trecho até o salão da
estação sem abrir a boca. Ao chegar à saída, paramos. O aguaceiro caía com violência e a
fila de táxis que, quando cheguei, fazia ponto na porta da estação, tinha evaporado.
— Não quero voltar para a Villa Helius essa noite, David. Ainda não.
— Pode ficar em minha casa, se quiser, ou podemos procurar um quarto num hotel.
— Não quero ficar sozinha.
— Vamos para a minha casa. Se possuo alguma coisa de sobra, são quartos.
Avistei um carregador parado na porta, contemplando a tempestade com um enorme
guarda-chuva nas mãos. Fui até ele e me ofereci para comprá-lo por um preço cinco vezes
maior que o habitual. Entregou-me o guarda-chuva imediatamente, estampando um sorriso
subserviente.
Debaixo daquele guarda-chuva enfrentamos o dilúvio rumo à casa da torre onde, por
causa das rajadas de vento e das poças d'água, chegamos dez minutos depois,