O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 87
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Não, Sr. Martín. Tudo o que sei é que o pai da Srta. Cristina está internado num
lugar chamado Villa San Antonio.
Dias mais tarde, Vidal me fez uma de suas visitas surpresa e passou a tarde inteira
em casa, bebendo meu anis, fumando meus cigarros e falando da desgraça que tinha
acontecido com seu motorista.
— Parece mentira. Um homem forte como um carvalho e, de uma hora para outra, cai
duro e já não é mais capaz nem de dizer quem é.
— E Cristina, como está?
— Pode imaginar. A mãe morreu há anos e Manuel é a única família que lhe resta.
Levou um álbum de fotografias da família e mostra todo dia ao pai para ver se ele se
lembra de algo.
Enquanto Vidal falava, seu romance — ou talvez devesse dizer meu — descansava
numa pilha de papéis, virado de capa para baixo, sobre a mesa da galeria, a meio metro
de suas mãos. Contou que, na ausência de Manuel, tinha pedido a Pep — segundo ele,
um bom cavaleiro — que se dedicasse à arte da direção, mas o jovem, por enquanto, era
um desastre.
— Dê mais um tempo. Um automóvel não é como um cavalo. O segredo é a prática.
— Já que falou nisso, Manuel ensinou você a dirigir, não é?
— Um pouco — admiti. — E não é tão fácil quanto parece.
— Se esse romance que está escrevendo não vender, você sempre pode ser meu
motorista.
— Não vamos enterrar o pobre Manuel tão cedo, dom Pedro.
— Um comentário de mau gosto — admitiu Vidal. — Sinto muito.
— E o seu romance, dom Pedro?
— Bem encaminhado. Cristina levou o manuscrito final para Puigcerdà para passar a
limpo e dar uma forma, enquanto faz companhia ao pai.
— Muito me alegra vê-lo assim contente.
Vidal sorriu, triunfante.
— Acho que será grande — disse. — Depois de tantos meses que achava perdidos,
reli as primeiras cinqüenta páginas que Cristina passou a limpo e fiquei surpreso comigo
mesmo. Acho que vai surpreendê-lo também. Vai ver que ainda me restam alguns truques
a lhe ensinar.
— Nunca duvidei disso, dom Pedro.