O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 86
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
embora estivesse prestes a cair morto, tinha ganho o direito de olhá-la nos olhos sem se
envergonhar de suas ridículas esperanças.
Não voltei ao consultório do Dr. Trías. Não via necessidade. No dia em que não
pudesse escrever mais nenhuma palavra, seria o primeiro a perceber. Meu confiável e
pouco escrupuloso farmacêutico proporcionaria quantas balinhas de codeína eu lhe
pedisse e também uma ou outra delícia que incendiasse as veias e dinamitasse desde a
dor até a consciência. Não falei com ninguém sobre minha consulta com o médico nem
sobre os resultados dos exames.
Minhas necessidades básicas eram supridas por uma encomenda semanal que fazia a
Can Gispert, um formidável empório de secos e molhados situado na Rua Mirallers, atrás
da catedral de Santa María del Mar. O pedido era sempre o mesmo. Quem costumava
trazê-lo era a filha dos donos, uma moça que ficava me olhando como uma corça
assustada quando a convidava a esperar no saguão, enquanto ia pegar o dinheiro para lhe
pagar.
— Isso é para o seu pai e isso é para você.
Sempre lhe dava dez cêntimos de gorjeta, que ela aceitava em silêncio. Toda semana,
voltava a bater na porta com meu pedido, e toda semana eu pagava e lhe dava os dez
cêntimos de gorjeta. Durante nove meses e um dia, o tempo que me tomaria a feitura do
único livro que levaria meu nome, aquela mocinha cujo nome desconhecia e cujo rosto
esquecia a cada semana, até vê-la novamente no umbral de minha porta, foi a pessoa que
vi com mais freqüência.
Sem aviso prévio, Cristina deixou de comparecer ao nosso encontro de todas as
tardes. Começava a temer que Vidal tivesse percebido nosso estratagema, quando, depois
de uma semana de ausência, abri a porta pensando que era ela, numa tarde em que ainda
tinha esperança, e deparei-me com Pep, um dos empregados da Villa Helius. Trazia um
pacote cuidadosamente fechado, da parte de Cristina, contendo todo o manuscrito de
Vidal. Pep explicou que o pai de Cristina tinha sofrido um derrame causado por aneurisma,
que estava praticamente inválido e que ela o tinha levado para um sanatório nos Pirineus,
em Puigcerdà, onde, ao que parece, havia um jovem médico especializado no assunto.
— O Sr. Vidal encarregou-se de tudo — explicou Pep. — Sem olhar para os gastos.
Vidal nunca se esquecia de seus empregados, pensei, não sem uma certa amargura.
— Ela pediu que lhe entregasse isso em mãos. E que não dissesse nada a ninguém.
O moço entregou o pacote, aliviado por se ver livre daquele objeto misterioso.
— Deixou alguma indicação de onde poderia encontrá-la, se necessário?