O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 85
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Acho que sei o que está havendo com você, Martín. Está esgotado. Há anos que
não dá um descanso aos miolos, coisa que essa casa agradece e valoriza, e creio que
precisa de uma pausa. Nós entendemos, não é mesmo?
Barrido fitou Escobillas e a Veneno, que trataram de concordar com uma cara de
conteúdo.
— Você é um artista e quer fazer arte, alta literatura, algo que brote do coração e
inscreva seu nome em letras de ouro nos anais da história universal.
— Do modo como você fala parece ridículo — disse eu.
— Porque é — acrescentou Escobillas.
— Não, não é — atalhou Barrido. — É humano. E nós somos humanos. Eu, meu sócio
e também Herminia, que sendo mulher e criatura de sensibilidade delicada é a mais
humana de todos, não é mesmo, Herminia?
— Humaníssima — concordou a Veneno.
— E como todos somos humanos, podemos entendê-lo e queremos apoiá-lo, pois
temos muito orgulho de você e estamos convencidos de que seus êxitos serão os nossos e
nesta casa, no fim das contas, o que conta são as pessoas, não os números.
Ao término do discurso, Barrido fez uma pausa cênica. Talvez esperasse que eu
rompesse em aplausos, mas quando viu que permanecia calado, prosseguiu sua
exposição sem mais delongas.
— Por isso vou lhe propor o seguinte: tire seis meses, nove se necessário, pois um
parto é um parto, e tranque-se em seu escritório para escrever o grande romance de sua
vida. Quando estiver pronto, traga para nós, que o publicaremos com seu nome, jogando
todas as fichas no seu livro e indo para o tudo ou nada. Porque nós estamos do seu lado.
Olhei para Barrido e em seguida para Escobillas. A Veneno estava prestes a romper
em pranto de tanta emoção.
— Sem adiantamento, é claro — esclareceu Escobillas. Barrido deu uma palmada
eufórica no ar.
— E então, o que me diz?
Comecei a trabalhar naquele mesmo dia. Meu plano era tão simples quanto
descabido. De dia, reescreveria o livro de Vidal; de noite, trabalharia no meu. Lançaria mão
de todas as artimanhas que Ignatius B. Samson tinha me ensinado, para colocá-las a
serviço do pouco que restava de digno e decente, se é que restava, em meu coração.
Escreveria por gratidão, por desespero e vaidade. Escreveria sobretudo para Cristina, para
provar que também era capaz de pagar minha dívida com Vidal e que David Martín,