O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 84
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Barrido e a Veneno trocaram um olhar sem mudar de expressão. Nessa altura,
Escobillas materializou-se porta adentro e olhou para mim com aquele ar seco e
displicente de alguém que está tirando, de olho, as suas medidas para um ataúde.
— Olhe só quem veio nos ver. Que surpresa agradável, não é mesmo? — perguntou
Barrido a seu sócio, que se limitou a concordar.
— E que más notícias seriam essas? — perguntou Escobillas.
— Está com algum problema de atraso, amigo Martín? — acrescentou Barrido
amistosamente. — Com certeza, podemos acertar...
— Não. Não há nenhum atraso. Simplesmente não vai haver livro.
Escobillas deu um passo à frente e arqueou as sobrancelhas. Barrido deixou escapar
uma risadinha.
— Como não vai haver livro? — perguntou Escobillas.
— É porque ontem queimei tudo e não sobrou uma única página do manuscrito.
Um enorme silêncio desabou. Barrido fez um gesto conciliador e indicou aquela que
era conhecida como a poltrona das visitas, um trono escuro e fundo no qual encurralavam
os autores e fornecedores, para que ficassem bem na altura do olhar de Barrido.
— Sente-se, Martín e conte-me tudo. Sinto que está preocupado com alguma coisa.
Pode se abrir conosco, você está em família.
A Veneno e Escobillas concordaram com convicção, mostrando o tamanho de seu
apreço com um olhar de embevecida devoção. Preferi ficar de pé. Todos fizeram o mesmo
e contemplaram-me como se fosse uma estátua de sal prestes a falar a qualquer
momento. Barrido devia estar com a cara doendo de tanto sorrir.
— E então?
— Ignatius B. Samson suicidou-se. Deixou inédito um conto de vinte páginas no qual
morre junto com Chloé Parmanyer, os dois abraçados depois de ingerirem veneno.
— O autor morre em uma de suas próprias novelas? — perguntou Herminia confusa.
— É sua despedida avant-garde do mundo dos folhetins. Um detalhe que eu tinha
certeza de que iria deixá-los encantados.
— E não poderia haver um antídoto ou...? — perguntou a Veneno.
— Martín, não deve ser necessário lembrar que foi você e não o supostamente defunto
Ignatius quem assinou um contrato... — disse Escobillas.
Barrido levantou a mão para calar seu colega.