PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Faz muito tempo que trabalha aqui?— perguntei.— Uma semana— respondeu a moça, solícita. Se meus cálculos não estavam errados, aquela era a oitava recepcionista que via em Barrido e Escobillas no período de um ano. Os empregados que dependiam diretamente da sorrateira Herminia duravam pouco, pois a Veneno, quando descobria que tinham alguma vantagem sobre ela e começava a temer que pudessem lhe fazer sombra, o que acontecia nove entre dez vezes, os acusava de roubo, furto ou algum erro absurdo e organizava um rosário de queixas até que Escobillas os pusesse no olho da Rua e lhes ameaçasse enviar algum assecla e porventura dessem com a língua nos dentes.
— Que alegria vê-lo por aqui, David— disse a Veneno.— Está mais bonito, com ótimo aspecto.— É que fui atropelado por um bonde. Barrido está?— Ora, o que é isso? Para você, ele sempre está. Vai ficar felicíssimo quando disser que veio nos visitar.— Você não tem nem idéia... A Veneno conduziu-me até o escritório de Barrido, decorado como o gabinete de um chanceler de opereta, com profusão de tapetes, bustos de imperadores, naturezas mortas e volumes encadernados em couro e adquiridos a peso e, pelo que eu podia imaginar, todos em branco. Barrido abriu o mais agradável de seus sorrisos e apertou minha mão.
— Já estamos todos impacientes para receber seu novo episódio. Saiba que estamos reeditando os dois últimos e as livrarias quase nos arrancam os livros das mãos. Mais cinco mil exemplares. O que lhe parece?
Pois para mim parecia que deviam ser pelo menos cinqüenta mil, mas me limitei a concordar com entusiasmo. Barrido e Escobillas tinham refinado a um nível de extremo requinte aquilo que, no sindicato editorial barcelonês, se conhecia como tiragem dupla. Faziam uma edição oficial e declarada de cada episódio, com uma tiragem de dois ou três mil exemplares, pelos quais pagavam uma porcentagem ridícula ao autor. Em seguida, se o livro funcionava, rodavam mais uma ou várias edições reais, mas sempre clandestinas, de algumas dezenas de milhares de exemplares, pelos quais o autor não via um tostão furado. Estes últimos distinguiam-se dos primeiros porque Barrido os mandava imprimir numa antiga salameria em Santa Perpétua de Mogoda e, ao folheá-los, sentia-se o inconfundível perfume de chouriço bem curado.— Temo ter que lhe dar más notícias.