O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 82
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Naquela mesma noite subi para o escritório da torre e sentei diante da máquina de
escrever, embora soubesse que estava seco por dentro. As janelas estavam abertas de
par em par, mas Barcelona não queria me contar mais nada e fui incapaz de completar
uma única página. Tudo o que era capaz de inventar me parecia banal e vazio. Bastava
relê-las para compreender que minhas palavras mal valiam a tinta em que estavam
impressas. Já não era capaz de ouvir a música que um pedaço decente de prosa
desprende. Pouco a pouco, como um veneno lento e prazeroso, as palavras de Andreas
Corelli começaram a gotejar em meu pensamento.
Faltavam pelo menos cem páginas para terminar aquele enésimo episódio das
rocambolescas aventuras que tanto tinham engordado os bolsos de Barrido e Escobillas,
mas naquele exato momento descobri que não ia terminá-las. Ignatius B. Samson tinha
ficado estirado nos trilhos diante daquele bonde, exaurido, com a alma sugada por um
excesso de páginas que nunca deveriam ter visto a luz. Mas antes de partir, tinha deixado
uma última vontade. Ser enterrado sem choro nem vela e que, por uma vez na vida, eu
tivesse a coragem de usar minha própria voz. Deixava-me o legado de seu considerável
arsenal de fumaça e espelhos. E pedia que o deixasse partir, pois tinha nascido para ser
esquecido.
Peguei as últimas páginas que tinha escrito em seu nome e toquei fogo, sentindo
como se um peso saísse de cima de mim a cada folha que entregava às chamas. Uma
brisa úmida e calorosa soprava aquela noite sobre os telhados e ao entrar por minhas
janelas levou as cinzas de Ignatius B. Samson e espalhou-as entre as vielas da cidade
velha que nunca, por mais que suas palavras se perdessem para sempre e seu nome
sumisse da memória de seus mais devotos leitores, haveria de deixar.
No dia seguinte, apresentei-me nos escritórios de Barrido e Escobillas. A recepcionista
era nova, apenas uma mocinha, e não me reconheceu.
— Seu nome?
— Hugo, Victor.
A recepcionista sorriu e avisou Herminia pela central telefônica.
— Dona Herminia, dom Victor Hugo está aqui para ver o Sr. Barrido. Pude vê-la
concordar e desligar a central.
— Disse que já vem.