O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 81

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Quanto tempo me resta? — É difícil determinar exatamente. Diria que um ano, um ano e meio no máximo. Seu tom dava a entender claramente que aquilo era um prognóstico mais do que otimista. — E desse ano, ou o que for, por quanto tempo pensa que poderei conservar minhas faculdades para poder trabalhar e cuidar de mim mesmo? — O senhor é escritor e trabalha com o cérebro. Lamentavelmente é exatamente aí que está localizado o problema e aí é que as limitações vão aparecer em primeiro lugar. — Limitações não é um termo médico, doutor. — O normal é que, à medida que a doença avance, os sintomas que tem experimentado se manifestem com mais intensidade e freqüência e que, a partir de um certo momento, precise ficar internado num hospital para que cuidemos do senhor. — Não poderei escrever. — Não poderá nem pensar em escrever. — Quanto tempo? — Não sei. Nove ou dez meses. Talvez mais, talvez menos. Sinto muito, Sr. Martín. Concordei e levantei. Minhas mãos tremiam e tinha falta de ar. — Sr. Martín, compreendo que precisa de tempo para pensar em tudo o que estou dizendo, mas é importante que tomemos certas providências o quanto antes... — Ainda não posso morrer, doutor. Ainda não. Tenho coisas a fazer. Depois terei a vida inteira para morrer.