O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 77
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Sr. Corelli, sou um autor de romances de aventuras que sequer levam meu nome.
Meus editores, que o senhor parece conhecer, são uma dupla de exploradores de quinta
categoria que não valem seu peso em esterco, e meus leitores nem sabem que existo.
Ganho a vida com isso há anos e ainda não escrevi uma única página que me satisfaça. A
mulher que amo pensa que estou desperdiçando minha vida e acho que tem razão. Pensa
também que não tenho direito de desejá-la, pois somos um par de almas insignificantes
cuja única razão de ser é a dívida de gratidão que temos com um homem que nos tirou, os
dois, da miséria, e pode ser que também tenha razão sobre isso. Pouco importa. Quando
menos esperar, estarei completando 30 anos e perceberei que a cada dia pareço menos
com a pessoa que queria ser quando tinha 15. Isso se chegar lá, pois minha saúde
ultimamente anda tão consistente quanto o meu trabalho. Agora, nesse exato momento, se
for capaz de juntar duas ou três frases legíveis por hora, me dou por satisfeito. Esse é o
tipo de autor e de homem que sou. Não aquele que recebe visitas de editores de Paris,
com cheques em branco para escrever um livro que mudará a sua vida e transformará
todas as suas esperanças em realidade.
Corelli me ouviu com expressão grave, pesando minhas palavras.
— Creio que é um juiz demasiado severo de si mesmo, o que sempre é uma qualidade
típica das pessoas de valor. Pode acreditar quando digo que, ao longo de minha carreira,
tratei com uma infinidade de personagens pelos quais não da