O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 78
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Suas palavras trouxeram consigo um longo silêncio.
— Realmente, sabe de muita coisa, Sr. Corelli.
— O suficiente para pensar que gostaria de conhecê-lo melhor e ser seu amigo. Acho
que o senhor não tem muitos amigos. Nem eu. Não confio nas pessoas que acham que
têm muitos amigos. É sinal de que não conhecem os outros.
— Mas o senhor não está procurando um amigo, e sim um empregado.
— Procuro um sócio temporário. Procuro pelo senhor.
— Está muito seguro de si mesmo — arrisquei.
— É um defeito de nascença — replicou Corelli, levantando-se. — O outro é a
clarividência. Por isso, compreendo que talvez ainda seja muito cedo para o senhor e que
ouvir a verdade de meus lábios ainda não é suficiente. Precisa vê-la com seus próprios
olhos. Senti-la em sua carne. E acredite, o senhor vai sentir.
Estendeu a mão e não a retirou até que eu a apertasse.
— Posso pelo menos levar a certeza de que vai pensar no que disse e de que
voltaremos a nos falar? — perguntou.
— Não sei o que dizer, Sr. Corelli.
— Não precisa dizer nada agora. Prometo que da próxima vez que nos encontrarmos
o senhor verá as coisas muito mais claramente.
Com essas palavras, sorriu cordialmente e afastou-se em direção às escadarias.
— Haverá uma próxima vez? — perguntei. Corelli parou e virou-
se.
— Sempre há.
— Onde?
As últimas luzes do dia caíam sobre a cidade e seus olhos brilharam como duas
brasas.
Fiquei olhando enquanto ele desaparecia pela porta da escada. Só então me dei conta
de que, durante toda a conversa, não o tinha visto pestanejar nem uma única vez.