O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 76
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
O estranho estendeu um de seus cartões de visita, idêntico ao que ainda conservava e
que tinha encontrado em minha mão ao despertar do sonho com Chloé.
Andreas Corelli Editor Éditions de la Lumière
Boulevard St.-Germain, 69, Paris
— Sinto-me lisonjeado, Sr. Corelli, mas temo não poder aceitar seu convite. Tenho um
contrato assinado com...
— Barrido e Escobillas, eu sei. Gentalha com a qual, sem intenção de ofendê-lo, o
senhor não deveria ter nenhuma relação.
— É uma opinião partilhada por muitas pessoas.
— A Srta. Sagnier, por exemplo?
— O senhor a conhece?
— De ouvir falar. Parece ser o tipo de mulher cujo respeito e cuja admiração um
homem faria qualquer coisa para conquistar, não é mesmo? Ela não o anima a abandonar
essa dupla de parasitas e a ser fiel a si mesmo?
— Não é tão simples assim. Tenho um contrato que me obriga a trabalhar com
exclusividade para eles durante seis anos.
— Eu sei, mas isso não deveria preocupá-lo. Meus advogados estão estudando a
questão e posso garantir que encontrarão diversos modos de dissolver definitivamente
qualquer obrigação legal, caso decidisse aceitar minha proposta.
— E que proposta seria essa?
Corellli sorriu com ar brincalhão e malicioso, como um colegial que se diverte
descobrindo um segredo.
— Que me dedique um ano, com exclusividade, para trabalhar num livro sob
encomenda, um livro cujo tema discutiríamos, o senhor e eu, quando da assinatura do
contrato e pelo qual pagaríamos, adiantado, a soma de cem mil francos.
Olhei para ele atônito.
— Se essa soma não lhe parece adequada, estou pronto a estudar o que o senhor
considerar mais apropriado. Serei sincero, Sr. Martín, não vou brigar com o senhor por
dinheiro. E, cá entre nós, creio que também não o fará, pois quando lhe contar que tipo de
livro terá de escrever para mim, o preço será o de menos.
Suspirei e ri com meus botões.
— Estou vendo que não acredita.