O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 75
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Sim. Foi só um enjôo.
O estranho sentou perto de mim. Estava vestido com um terno escuro de três peças,
de corte requintado, enfeitado com um pequeno broche prateado na lapela do paletó: um
anjo de asas abertas, que me pareceu estranhamente familiar. De repente, ocorreu-me
que a presença de um cavalheiro em trajes impecáveis naquele terraço era um tanto
incomum. Como se pudesse ler meus pensamentos, o estranho sorriu.
— Espero não o ter assustado — declarou. — Suponho que não esperava encontrar
ninguém aqui em cima.
Fitei-o, perplexo. Vi o reflexo de meu rosto em suas pupilas negras, que se dilatavam
como uma mancha de tinta sobre papel.
— Posso perguntar o que o traz aqui?
— O mesmo que ao senhor: grandes esperanças.
— Andreas Corelli — murmurei. Seu rosto se iluminou.
— Que grande prazer poder enfim cumprimentá-lo pessoalmente, meu amigo!
Falava com um leve sotaque que não consegui identificar. Meu instinto dizia que me
levantasse e fosse embora dali o mais rápido possível, antes que aquele estranho
pronunciasse uma única palavra a mais, mas havia alguma coisa em sua voz, em seu
olhar, que transmitia serenidade e confiança. Preferi não perguntar como podia saber que
me encontraria naquele lugar, se eu mesmo não sabia onde estava. O som de suas
palavras e a luz de seus olhos me reconfortavam. Estendeu a mão, que apertei. Seu
sorriso prometia um paraíso perdido.
— Creio que deveria lhe agradecer todas as gentilezas que teve para comigo ao longo
desses anos, Sr. Corelli. Temo estar em dívida com o senhor.
— Em absoluto. Sou eu quem está em dívida, amigo, e que deve se desculpar por
abordá-lo dessa forma, num lugar e numa ocasião tão inconvenientes, mas confesso que
já faz tempo que queria lhe falar e não conseguia encontrar um momento propício.
— O que posso fazer pelo senhor, então? — perguntei.
— Quero que trabalhe para mim.
— Perdão?
— Quero que escreva para mim.
— Claro. Estava esquecendo que é um editor.
O estranho riu. Tinha um sorriso doce, de criança que nunca quebrou um prato.
— O melhor de todos. O editor por quem o senhor esperou a vida inteira. O editor que
o fará imortal.