O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 74

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Duvidar ofende. Quando chegou você já estava limpo como um anjo além do mais, só aceito títulos negociáveis em bolsa. Deixei o lunático em sua cama com seu jornal atrasado e seu discurso inçado. Minha cabeça ainda girava e a duras penas consegui dar quatro passos em linha reta e cheguei a uma porta numa das laterais da grande abóbada, que iria para uma escada. Uma tênue claridade parecia vir do alto das escadas. Subi quatro ou cinco andares até sentir um sopro de ar fresco que entrava por um portão no fim dos degraus. Saí, e lá fora compreendi finalmente onde tinha ido parar. Diante de mim estendia-se um lago suspenso sobre o arvoredo do Parque de Ciudadela. O sol começava a se pôr sobre a cidade, e as águas cobertas de algas ondulavam como vinho derramado. O Depósito das Águas tinha a aparência de um castelo tosco, ou de uma prisão. Foi construído para abastecer de água o pavilhão da Exposição Universal de 1888, mas, com o tempo, suas tripas de catedral laica acabaram servindo de refúgio para moribundos e indigentes que não tinha nenhum outro abrigo, quando a noite ou o frio apertavam. Atualmente, a grande represa suspensa no terraço era um lago lamacento e turvo que condessangrava lentamente pelas fendas do edifício. Foi então que reparei na figura parada num dos extremos do terraço. Como se o simples roçar dos meus olhos o tivesse alertado, o vulto deu meia-volta bruscamente e olhou para mim. Ainda me sentia um pouco tonto e olha a visão nublada, mas tive a impressão de que estava se aproximando. Deslocava-se muito rapidamente, como se seus pés não tocassem o solo ao caminhar e se movesse em sacudidelas bruscas e ágeis demais para que os olhos pudessem captar. Mal dava para observar seu rosto na contraluz, mas percebi que se tratava de um homem de olhos negros e reluzentes, que pareciam grandes demais para o rosto. Quanto mais perto ficava, maior era a impressão de que sua silhueta se alongava e crescia em altura. Senti um calafrio diante daquele avanço e retrocedi alguns passos, sem me dar conta de que estava caminhando para a beira do lago. Senti que perdia o equilíbrio e começava a cair de costas nas águas escuras do tanque, quando o estranho me segurou pelo braço. Puxou-me delicadamente de volta para terra firme. Sentei num dos bancos que rodeavam o tanque e respirei fundo. Levantei os olhos e, pela primeira vez, pude vê-lo com clareza. Seus olhos eram de tamanho normal, sua estatura, como a minha, seus passos e gestos, os de um cavalheiro como outro qualquer. Tinha uma expressão amável e tranqü