O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 73

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 13 Abri os olhos. Colunas de pedra grossas como árvores ascendiam na penumbra até uma abóbada nua. Agulhas de luz poeirenta caíam em diagonal e delineavam fileiras intermináveis de caminhas miseráveis. Pequenas gotas d'água se desprendiam das alturas como lágrimas negras, que explodiam em eco ao tocar o chão. A penumbra cheirava a mofo e umidade. — Bem vindo ao purgatório. Levantei e virei para descobrir um homem vestido de farrapos, que lia um jornal à luz de um lampião e exibia um sorriso sem a metade dos dentes. A manchete do jornal que tinha nas mãos anunciava que o general Primo de Rivera assumia todos os poderes do Estado e instaurava uma ditadura de índole branda para salvar o país da hecatombe iminente. Aquele jornal tinha pelo menos seis anos. — Onde estou? O homem olhou para mim por cima do jornal, intrigado. — No hotel Ritz. Não notou? — Como cheguei aqui? — Feito um trapo. Foi trazido de manhã, de maca, e ficou curtindo a bebedeira desde então. Apalpei minha jaqueta e verifiquei que todo o dinheiro que estava comigo tinha desaparecido. — Como anda o mundo! — exclamou o homem diante das noticias do jornal. — Todos sabem que, nas fases mais avançadas do cretinismo, a falta de idéias é compensada pelo excesso de ideologias. — Como faço para sair daqui? — Que pressa... Tem duas maneiras, a permanente e a temporária. A permanente é pelo telhado: um bom salto e você fica livre de toda essa mixórdia para sempre. A saída temporária fica lá no fundo, onde está aquele imbecil de punho em riste fazendo a saudação revolucionária para todos os passantes. Mas sair por ali, cedo ou tarde acabará voltando. O homem do jornal me observava divertido, com aquela lucidez que às vezes brilha só nos loucos. — Foi você quem me roubou?