O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 72
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
mudado, que a cidade não parava de crescer a seu redor, mas a Sagrada Família
permanecia em ruínas desde o seu primeiro dia.
Quando cheguei, despontava um amanhecer azul corado por luzes vermelhas que
desenhavam a silhueta das torres da fachada da Natividade. O vento leste arrastava a
poeira das Ruas de terra e o cheiro ácido das fábricas que marcavam a fronteira do bairro
de Sant Martí. Estava atravessando a Rua Mallorca, quando vi as luzes de um bonde
aproximando-se na neblina da alvorada. Ouvi o matraquear das rodas de metal sobre os
trilhos e o som da sineta que o motorneiro fazia soar para avisar de sua passagem pelas
sombras. Quis correr, mas não pude. Fiquei ali, cravado, imóvel entre os trilhos
contemplando as luzes do bonde que arremetia contra mim. Ouvi os gritos do motorneiro e
vi a esteira de faíscas que as rodas arrancaram quando os freios foram puxados. E mesmo
assim, com a morte a apenas alguns metros, não consegui mover um músculo. Senti
aquele cheiro de eletricidade da luz branca que prendeu meus olhos, até que o farol do
bonde foi ficando nublado. Desmoronei como um boneco, conservando os sentidos apenas
alguns segundos mais, justo o necessário para ver que a roda do bonde, fumegante, se
detinha a 20 centímetros do meu rosto. Em seguida, tudo era escuridão.