PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
perfeitamente que Cristina lia isso em meus olhos toda vez que chegava em minha casa e também sabia perfeitamente que ela nunca corresponderia a meus gestos. Não havia futuro ou grandes esperanças naquela corrida para lugar nenhum, e ambos sabíamos disso.
Às vezes, já cansados de tentar manter à tona aquele barco que fazia água por todo lado, abandonávamos o manuscrito de Vidal e nos atrevíamos a falar de algo que não fosse aquela proximidade que, de tanto se esconder, começava a queimar na consciência. Em algumas ocasiões, me enchi de coragem e peguei sua mão. Ela deixava, mas eu sabia que a incomodava, que pensava que o que fazíamos não estava certo, que a dívida de gratidão que tínhamos para com Vidal nos unia e nos separava a um só tempo. Certa noite, pouco antes de ela ir embora, tomei seu rosto e tentei beijá-la. Ficou imóvel e quando me vi no espelho de seu olhar não me atrevi a dizer nada. Levantou e partiu sem uma palavra. Não a vi durante duas semanas e quando regressou me fez prometer que aquilo nunca mais ia acontecer.
— David, quero que entenda que quando acabarmos de trabalhar no livro de Pedro, não voltaremos a nos ver como agora.— Por que não?— Você sabe o porquê. Meus avanços não eram a única coisa que Cristina não via com bons olhos. Começava a suspeitar que Vidal estava certo, quando contou o que ela pensava sobre os livros que eu escrevia para Barrido e Escobillas, embora nunca tenha dito nada. Não era difícil imaginá-la pensando que meu compromisso era mercenário e sem alma, que estava vendendo minha integridade em troca de uma esmola e enriquecendo aquela dupla de ratazanas de esgoto porque não tinha coragem de escrever com o coração, com meu nome e com meus próprios sentimentos. O que mais me doía era que, no fundo, ela tinha razão. Comecei a fantasiar com a idéia de renunciar a meu contrato, de escrever um livro só para ela, de ganhar, enfim, o seu respeito. Se a única coisa que sabia fazer não era suficientemente boa para Cristina, talvez valesse a pena voltar aos dias cinzentos e miseráveis do jornal. Sempre podia viver da caridade e dos favores de Vidal.
Tinha saído para caminhar depois de uma longa noite de trabalho, incapaz de conciliar o sono. Sem rumo certo, meus passos me guiaram cidade acima até as obras da igreja da Sagrada Família. Quando pequeno, meu pai tinha me levado lá algumas vezes, para contemplar aquela babel de esculturas e pórticos que nunca acabava de levantar vôo, como se fosse maldita. Gostava de visitá-la sempre e de comprovar que não tinha