O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 70
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Preferi não dizer que Vidal tinha tomado emprestado a minha idéia e, com intenção de
não preocupá-la ainda mais, sorri e fiz que sim.
— Precisa de um pouco de trabalho. Isso é tudo.
Quando já começava a anoitecer, Cristina sentava à máquina e, entre os dois,
escrevíamos o livro de Vidal, letra por letra, linha por linha, cena por cena.
O argumento criado por Vidal era tão vago e insosso que optei por recusar o que tinha
improvisado quando sugeri a idéia. Lentamente, começamos ressuscitar os personagens,
explodindo-os por dentro e refazendo tudo dos pés à cabeça. Nem uma única cena,
momento, linha ou palavra sobrevivia ao processo e mesmo assim, à medida que
avançávamos, eu tinha a impressão de que estávamos fazendo justiça ao romance que
Vidal tinha no coração e queria escrever, mas não sabia como.
Cristina me dizia que Vidal, semanas depois de pensar que tinha escrito uma cena,
quando a relia na versão datilografada, às vezes se surpreendia com o fino labor e a
plenitude de um talento no qual tinha deixado de acreditar. Cristina temia que descobrisse
o que estávamos fazendo e defendia que devíamos ser mais fiéis ao original.
— Nunca subestime a vaidade de um escritor, sobretudo de um escritor medíocre —
replicava eu.
— Não gosto que fale assim de Pedro.
— Eu também não, sinto muito.
— Mas você devia, no mínimo, diminuir um pouco o ritmo. Não está com um bom
aspecto. Já não estou tão preocupada com Pedro, o que me preocupa agora é você.
— Alguma coisa de bom tinha que sair disso tudo.
Com o tempo, acostumei-me a viver para saborear aqueles instantes que partilhava
com ela. No entanto, meu próprio trabalho não demorou a se ressentir. Arranjava tempo
que não tinha para trabalhar em A Cidade dos Malditos, dormindo apenas três horas por
dia e acelerando ao máximo para cumprir os prazos do contrato. Barrido e Escobillas
tinham por norma não ler livro algum, nem os que publicavam, nem os da concorrência,
mas a Veneno lia, e logo começou a suspeitar de que algo estranho estava sucedendo.
— Isso não é você — dizia às vezes.
— Claro que não sou eu, Hermínia querida. É Ignatius B. Samson.
Estava consciente do risco que corria, mas não me importava. Não me importava
acordar todos os dias coberto de suor, com o coração palpitando como se fosse me partir
as costelas. Teria pago aquele preço, e muito mais, para não ter de renunciar à
convivência suave e secreta que sem querer nos convertia em cúmplices. Sabia