O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 69

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 12 Nunca saberei se o fiz para ajudar Vidal, como dizia a mim mesmo, ou simplesmente para ter uma desculpa para passar mais tempo ao lado de Cristina. Nós nos encontrávamos quase todas as tardes na casa da torre. Cristina trazia as folhas que Vidal tinha escrito à mão no dia anterior, sempre cheias de borrões, parágrafos inteiros riscados, anotações por todos os lados e a pretensão de resgatar o irresgatável. Subíamos para o escritório e nos sentávamos no chão. Cristina as lia em voz alta uma primeira vez e em seguida discutíamos longamente sobre elas. Meu mentor estava escrevendo uma tentativa de saga épica que abraçava três gerações de uma dinastia barcelonense não muito diferente dos Vidal. A ação tinha início alguns anos antes da revolução industrial e, com a chegada de dois irmãos órfãos à cidade, evoluía para uma espécie de parábola da história bíblica Caim e Abel. Um dos irmãos acaba se transformando no mais rico e poderoso magnata de sua época, enquanto o outro entregava seu destino à Igreja e a amparar mais pobres, terminando seus dias tragicamente num episódio que recorda as desventuras do sacerdote e poeta sacro Jacint Verdaguer. Os irmãos passam a vida se enfrentando e uma interminável galeria de personagens desfila por tórridos melodramas, escândalos, assassinatos, amores ilícitos, tragédias e todos os demais requisitos do gênero, tudo isso ambientado no cenário do nascimento de uma metrópole moderna e do mundo industrial e financeiro. O romance é narrado pelo neto de um dos irmãos, que reconstrói a história enquanto contempla, de um palácio de Pedralbes, a cidade arder durante a Semana Trá