O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 69
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Nunca saberei se o fiz para ajudar Vidal, como dizia a mim mesmo, ou simplesmente
para ter uma desculpa para passar mais tempo ao lado de Cristina.
Nós nos encontrávamos quase todas as tardes na casa da torre. Cristina trazia as
folhas que Vidal tinha escrito à mão no dia anterior, sempre cheias de borrões, parágrafos
inteiros riscados, anotações por todos os lados e a pretensão de resgatar o irresgatável.
Subíamos para o escritório e nos sentávamos no chão. Cristina as lia em voz alta uma
primeira vez e em seguida discutíamos longamente sobre elas. Meu mentor estava
escrevendo uma tentativa de saga épica que abraçava três gerações de uma dinastia
barcelonense não muito diferente dos Vidal. A ação tinha início alguns anos antes da
revolução industrial e, com a chegada de dois irmãos órfãos à cidade, evoluía para uma
espécie de parábola da história bíblica Caim e Abel. Um dos irmãos acaba se
transformando no mais rico e poderoso magnata de sua época, enquanto o outro
entregava seu destino à Igreja e a amparar mais pobres, terminando seus dias
tragicamente num episódio que recorda as desventuras do sacerdote e poeta sacro Jacint
Verdaguer. Os irmãos passam a vida se enfrentando e uma interminável galeria de
personagens desfila por tórridos melodramas, escândalos, assassinatos, amores ilícitos,
tragédias e todos os demais requisitos do gênero, tudo isso ambientado no cenário do
nascimento de uma metrópole moderna e do mundo industrial e financeiro. O romance é
narrado pelo neto de um dos irmãos, que reconstrói a história enquanto contempla, de um
palácio de Pedralbes, a cidade arder durante a Semana Trá