O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 63
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Não gosto de telefones. Gosto de ver a cara das pessoas com quem falo, e que
vejam a minha também.
— No seu caso, não sei se é uma boa idéia. Já se olhou no espelho ultimamente?
— Isso é especialidade sua, dom Pedro.
— Tem gente no necrotério do Hospital Clínico com uma cor melhor. Ande, vista-se.
— Por quê?
— Porque eu mandei. Vamos dar um passeio.
Vidal não aceitou negativas nem protestos. Arrastou-me até o carro que esperava no
passeio Born e mandou Manuel dar a partida.
— Para onde vamos? — perguntei.
— Surpresa.
Atravessamos Barcelona inteira para chegar à avenida Pedralbes e começar a subir a
ladeira da colina. Alguns minutos depois, avistamos a Villa Helius, todas as janelas acesas
projetando uma cascata de ouro candente sobre o crepúsculo.
Vidal não abria o bico e sorria misterioso. Ao chegar ao casarão, mandou que o
seguisse e levou-me até o grande salão. Um grupo de pessoas esperava e, ao me ver,
aplaudiu. Reconheci dom Basilio, Cristina, Sempere pai e filho, minha antiga professora,
dona Mariana, alguns dos autores que publicavam comigo em Barrido e Escobillas e com
quem tinha feito amizade, Manuel, que tinha se juntado ao grupo e algumas das
conquistas de Vidal. Dom Pedro me deu uma taça de champanhe e sorriu.
— Felizes 28 primaveras, David.
Não me lembrava.
No fim do jantar, pedi desculpas um instante para ir ao jardim tomar ar. Um céu
estrelado estendia seu véu de prata sobre as árvores. Tinha se passado apenas um minuto
quando ouvi passos e virei para dar de cara com a última pessoa que esperava ver
naquele instante: Cristina Sagnier. Sorriu, quase se desculpando pela intrusão.
— Pedro não sabe que vim conversar com o senhor — disse.
Notei que o dom tinha sumido do tratamento, mas fiz que não percebia.
— Gostaria muito que conversássemos, David — disse ela. — Mas não aqui, nem
agora.
Nem a penumbra do jardim conseguiu esconder meu desconcerto.
— Podemos nos encontrar amanhã, em algum lugar? — perguntou. — Prometo que
não tomarei muito tempo.