O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 62
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Não vai me convidar para um lanche?
— Estou dando um passeio e não estarei livre em menos de duas horas.
— Então permita que lhe convide. Quanto cobra para acompanhar uma dama por uma
hora?
A contragosto fui com ela até uma chocolateria da Rua Petritxol. Pedimos duas xícaras
de chocolate quente e sentamos um diante do outro disputando quem abriria a boca
primeiro. Pela primeira vez, ganhei eu.
— Não tive intenção de ofendê-lo ontem, David. Não sei o que dom Pedro andou lhe
dizendo, mas nunca disse nada daquilo.
— Mas pelo menos pensa, e foi por isso que dom Pedro falou.
— Não tem idéia do que penso — replicou com dureza. — E dom Pedro também não.
Dei de ombros.
— Está bem.
— O que falei era muito diferente. Disse que não entendia por que você não fazia algo
de que gostasse.
Sorri, concordando. A única coisa que sentia no momento era desejo de beijá-la.
Cristina sustentou meu olhar, desafiante. Não afastou o rosto quando estendi a mão e
acariciei seus lábios, deslizando os dedos pelo queixo e pelo pescoço.
— Não — disse por fim.
Quando o garçom chegou com as xícaras fumegantes, ela já tinha partido. Passaram-
se meses sem que voltasse a ouvir seu nome.
Num dia de fins de setembro, quando tinha acabado de terminar um novo episódio de
A Cidade dos Malditos, resolvi tirar uma noite de folga. Pressentia que uma nova
tempestade de náuseas e punhaladas no cérebro se aproximava. Engoli um punhado de