O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 61

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA despedidas, aquelas damas de uma noite me perguntavam como ganhava a vida e, quando a vaidade me traía e dizia que era escritor, tomavam-me por mentiroso, pois ninguém nunca tinha ouvido falar de David Martín, embora algumas soubessem quem era Ignatius B. Samson e conhecessem A Cidade dos Malditos de ouvir falar. Com o tempo, comecei a dizer que trabalhava no edifício da alfândega portuária das Atarazanas ou que era estagiário no escritório de advocacia de Sayrach, Muntaner & Cruells. Lembro-me de uma tarde em que estava sentado no café da Ópera em companhia de uma professora de música chamada Alicia. Suspeitava que ela também me usava para não pensar em alguém que não conseguia esquecer. Ia beijá-la, quando descobri o rosto de Cristina atrás da vidraça. Quando saí à Rua, já tinha se perdido entre os passantes da Rambla. Duas semanas depois, Vidal insistiu para que eu fosse à estréia de Madame Butterfly no Teatro del Liceo. A família Vidal era proprietária de um camarote no primeiro andar, e Vidal costumava assistir à temporada com periodicidade semanal. Ao encontrar- me com ele na entrada, vi que também tinha trazido Cristina. Ela me cumprimentou com um sorriso glacial e não voltou a me dirigir a palavra e nem mesmo um olhar, até que Vidal, na metade do segundo ato, resolveu descer à platéia para cumprimentar um de seus primos, deixando-nos a sós no camarote, um contra o outro, sem nenhum escudo senão Puccini e centenas de rostos na penumbra do teatro. Agüentei uns dez minutos antes de virar para fitá-la nos olhos. — Fiz alguma coisa que a ofendesse? — perguntei. — Não. — Então podemos tentar fingir que somos amigos, pelo menos em situações como essa? — Não quero ser sua amiga, David. — E por que não? — Porque o senhor também não pretende ser meu amigo. Tinha razão, não queria ser seu amigo. — É verdade que acha que estou me vendendo? — O que acho ou deixo de achar é o de menos. O que conta é o que o senhor pensa. Fiquei ali mais cinco minutos e, em seguida, levantei e saí sem uma palavra. Ao chegar à grande escadaria do Liceo, tinha prometido a mim mesmo que nunca mais ia lhe dedicar um pensamento, um olhar ou uma palavra amável. No dia seguinte, topei com ela na frente da catedral e quando tentei evitar o encontro, ela acenou com a mão e sorriu. Fiquei paralisado, vendo que se aproximava.