O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 60
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
déssemos um passeio, que acabava invariavelmente no bar Amirall, na Rua Joaquim
Costa, onde ele tinha conta e mantinha uma tertúlia literária toda sexta-feira à noite, para a
qual não me convidava porque sabia que os participantes, poetas frustrados e puxa-sacos
que riam de suas piadas à espera de uma esmola, uma recomendação para algum editor
ou uma palavra de elogio para amenizar as feridas da vaidade, me detestavam com a
consistência, vigor e empenho que faltavam em seus projetos artísticos, que o danado do
público insistia em ignorar. Lá, a golpes de absinto e havanas caribenhos, me falava de
seu romance, que nunca terminava, de seus planos de se aposentar, da vida de
aposentado, de seus namoricos e de suas conquistas: quanto mais velho ficava, mais
jovens e casadoiras eram elas.
— Não vai perguntar por Cristina? — dizia às vezes, malicioso.
— O que quer que pergunte?
— Se ela perguntou por você.
— Perguntou por mim, dom Pedro?
— Não.
— Então pronto.
— Na verdade, outro dia falou em você.
Olhei-o nos olhos para ver se estava só pegando no meu pé.
— E o que disse?
— Não vai gostar.
— Diga logo.
— Não falou com essas palavras, mas o que captei é que ela não entendia porque se
prostituía escrevendo folhetins de quinta para aquela dupla de ladrões, e que estava
jogando fora o seu talento e a sua juventude.
Senti como se Vidal tivesse acabado de cravar um punhal gelado em meu estômago.
— É isso que ela pensa?
Vidal deu de ombros.
— Pois por mim, pode ir direto para o inferno.
Trabalhava todos os dias, exceto domingos, que dedicava a perambular pelas Ruas,
acabando quase sempre em algum botequim do Paralelo, onde não era difícil encontrar
companhia e afeto passageiro nos braços de alguma alma solitária ou à espera como a
minha. Até a manhã seguinte, quando despertava a seu lado e descobria apenas uma
estranha, não percebia que todas pareciam com ela, a cor dos cabelos, o modo de
caminhar, um gesto, um olhar. Cedo ou tarde, para afogar aquele silêncio cortante das