O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 59

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 10 Só voltei a vê-la meses depois, em companhia de Pedro Vidal, na mesa permanentemente reservada para ele na Maison Dorée. Vidal convidou-me a sentar com eles, mas bastou trocar um olhar com ela para perceber que devia recusar a oferta. — Como vai o romance, dom Pedro? — De vento em popa. — Fico feliz. Bom proveito. Nossos encontros eram fortuitos. Às vezes tropeçava com ela na Sempere e Filhos, onde costumava aparecer para pegar as encomendas de dom Pedro. Sempere me deixava sozinho com ela quando a ocasião se apresentava, mas Cristina logo descobriu o truque e começou a mandar um dos empregados da Villa Helius para buscar os livros. — Sei que não é da minha conta — dizia Sempere. — Mas acho que é melhor tirar essa moça da cabeça. — Não sei do que está falando, Sr. Sempere. — Martín, nós já nos conhecemos há tempo... Os meses passaram num piscar de olhos, sem que eu percebesse. Vivia à noite, escrevendo desde o entardecer até o amanhecer e dormindo durante o dia. Barrido e Escobillas só faziam exultar com o sucesso de A Cidade dos Malditos e quando me viam à beira de um colapso nervoso garantiam que, depois de mais uns dois episódios, me concederiam um ano sabático, para que descansasse ou me dedicasse a escrever uma obra pessoal, que publicariam com pompa e circunstância, além do meu nome verdadeiro na capa, em grandes letras maiúsculas. Mas sempre faltavam mais dois ou três episódios. As pontadas, as dores de cabeça e os enjôos iam ficando mais freqüentes e mais intensos, mas eu atribuía tudo aquilo ao cansaço e tratava de afogá-los com novas injeções de cafeína, cigarros e uns comprimidos de codeína e sabe Deus mais o quê, obtidos às escondidas de um farmacêutico da Rua Argenteria, e que tinham gosto de pólvora. Dom Basilio, com quem almoçava quinta sim quinta não num terraço da Barceloneta, insistia para que procurasse um médico. Eu sempre dizia que sim, que tinha hora marcada naquela mesma semana. À parte meu antigo chefe e os Sempere, não dispunha de tempo para ver mais ninguém, exceto Vidal, e quando o fazia era mais porque ele me procurava do que por minha própria iniciativa. Ele não gostava da casa da torre e sempre insistia para que