O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 64
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Com uma condição — disse eu. — Que não me chame mais de senhor. Os
aniversários já nos envelhecem o suficiente.
Cristina sorriu.
— Certo. Mas também quero que me chame de você.
— É uma de minhas especialidades. Onde quer que nos encontremos?
— Pode ser em sua casa? Não quero que ninguém nos veja, nem que Pedro saiba
que falei com você.
— Como quiser...
Cristina sorriu, aliviada.
— Obrigada. Amanhã, então? À tarde?
— Quando quiser. Sabe onde moro?
— Meu pai sabe.
Inclinou-se levemente e beijou-me no rosto.
— Feliz aniversário, David.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, tinha desaparecido no jardim. Quando
voltei ao salão, tinha ido embora. Vidal lançou-me um olhar frio do outro lado do salão e só
depois de perceber que eu o tinha visto, sorriu.
Uma hora mais tarde, Manuel, com o beneplácito de Vidal, ofereceu-se para me levar
para casa na Hispano-Suiza. Sentei a seu lado, como costumava acontecer quando
viajava sozinho com ele ou quando ele aproveitava para me ensinar alguns truques de
direção e, sem que Vidal ficasse sabendo, até me deixava tomar o volante por alguns
minutos. Naquela noite, Manuel estava mais taciturno que de costume e não abriu a boca
até chegarmos ao centro da cidade. Estava mais magro que da última vez que o tinha visto
e tive a impressão de que a idade começava a deixar suas marcas.
— Aconteceu alguma coisa, Manuel? — perguntei. Ele deu de ombros.
— Nada de importância, Sr. Martín.
— Se estiver preocupado com alguma coisa...
— Bobagens de saúde. Nessa idade, tudo é preocupação, sabe como é. Mas não me
importo. Só me importo com minha filha.
Não sabia muito bem o que responder e limitei-me a balançar a cabeça.
— Creio que gosta dela, Sr. Martín. Da minha Cristina. Um pai percebe essas coisas.
Concordei de novo, em silêncio. Não trocamos mais nenhuma palavra até que Manuel
parou o carro ao pé da Rua Flassanders, me deu a mão e, mais uma vez, desejou feliz
aniversário.