PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Eu mal prestava atenção. Tinha sonhado tantas vezes com aquele lugar passando diante de suas portas, que só conseguia ver a aura fúnebre e obscura que o dominava. Avancei pelo corredor principal, explorando quartos e aposentos nos quais móveis velhos jaziam abandonados sob uma espessa camada de poeira. Sobre uma mesa coberta por uma toalha esfiapada, havia um jogo de louças e uma bandeja com frutas e flores petrificadas. Os copos e louças continuavam lá, como se os habitantes da casa tivessem se levantado no meio da refeição.
Os armários estavam repletos de roupas puídas, vestidos desbotados e sapatos. Havia montes de gavetas cheias de fotografias, óculos, canetas e relógios. Retratos que a poeira velava nos observavam das cômodas. As camas estavam feitas e cobertas por um véu branco que reluzia na penumbra. Um gramofone monumental descansava sobre uma mesa de mogno. Havia um disco colocado sobre ele, no qual a agulha tinha deslizado até o fim. Soprei a lâmina de poeira que o cobria e o título da gravação emergiu, o Lacrimosa de W. A. Mozart.
— A sinfônica em casa— disse o funcionário do banco.— O que mais se pode pedir? O senhor vai se sentir como um paxá.
O corretor lançou-lhe um olhar assassino, discordando dissimuladamente. Percorremos as dependências até a galeria situada ao fundo, onde um jogo de café repousava na mesa e um livro aberto numa cadeira continuava esperando que alguém virasse a página.— Parece que foram embora de repente, sem tempo de levar nada— disse eu. O funcionário pigarreou.— Talvez queira ver o estúdio? Ficava no alto de uma estreita torre, uma estrutura peculiar cuja alma era uma escada em caracol à qual se chegava pelo corredor principal. Na fachada exterior liam-se as marcas de todas as gerações de que a cidade podia se lembrar. A torre constituía uma guarita suspensa sobre os telhados do bairro da Ribera, rematada por uma estreita cúpula de metal e vidro pintado que fazia as vezes de clarabóia, sobre a qual se erguia uma rosa dos ventos em forma de dragão.
Subimos pela escadaria e chegamos a uma sala, da qual o funcionário do banco apressou-se a abrir as janelas para deixar entrar o ar e a luz. O aposento era constituído por um salão retangular de pé-direito alto e chão de madeira escura. De seus quatro janelões em arco, abertos nos quatro costados, contemplava-se a basílica de Santa María del Mar, ao sul, o grande mercado do Born, ao norte, a velha estação da França, a leste, e